Anjos de vidro: o lado triste do Natal

Por: Sônia Machiavelli

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Susan Saradon, Robin Williams e Penélope Cruz pertencem à categoria de atores competentes e carismáticos, que mantêm com a câmera aquela cumplicidade que torna verossímil qualquer história, mesmo a mais absurda. Eles salvam o filme Anjos de Vidro, do diretor Chazz Palminteri.

São dignas de elogios todas as cenas protagonizadas por Sarandon (Rose), Penélope (Nina) e Robin, num pequeno mas importante papel (Charlie), decisivo para o happy end da protagonista de um filme que fala o tempo todo de solidões, desencontros, frustrações, raivas, mas também de algumas bobagens difíceis de serem digeridas. Como é o caso de Jules (Marcus Thomas), personagem de uma das estórias que correm paralelas, todas focando no deslocamento de seres infelizes numa noite de Natal em Nova York. Jules quebra sua própria mão para passar a noite na emergência de um hospital, pois segundo conta, quer resgatar a alegria de uma festa natalina da qual participou quando criança e ali esteve internado. Fica um tanto difícil compreender este tipo de desejo. Fica meio estranho também aceitar que um velho garçon encontre em rapazes frequentadores do bar onde trabalha uma impressionante semelhança com sua mulher morta ainda jovem. Mas como os humanos vivem surpreendendo, e tudo o que é humano atiça a curiosidade do artista, ao longo do filme elenco e diretor acabam convencendo.

Susan domina a cena como a mulher de meia idade, divorciada, sem filhos, que cuida da mãe hospitalizada, vítima de mal de Alzheimer. Seu empenho em manter contato com ela cria boas situações na história. Torna-se inesquecível, por exemplo, o instante em que Rose entra no quarto onde se encontra a mãe, cercada por fotos e objetos inúteis, pois de nada valem à paciente como lembrança . A filha diz então, como se fosse possível manter qualquer diálogo, que no caminho entre a casa e o hospital encontrou uma colega dos tempos de universidade. Reconta o que a outra lhe disse sobre a própria felicidade: permanece casada com o namorado de juventude, cercada de lindos filhos e “trinta e cinco amigos” a quem vai oferecer uma grande ceia naquela noite. A solitária Rose, num tom entre irônico e melancólico, confessa à mãe, na verdade a si mesma, que “ sentiu vontade de dar uma surra” na ex-colega eufórica. Quem na vida nunca recebeu esse insulto que é a alegria alheia esfregada na cara em momento de sofrimento máximo? A reação é muitas vezes esta que Rose explicita, sem se envergonhar de sua condição humana. Palmas para Palminteri, o diretor, pois a cena é um primor. Há outras.

À parte os problemas específicos de cada um, o que costura as histórias é a angústia dos personagens diante da possibilidade de passar a noite de Natal apenas na companhia de si mesmos. Isso que soa como ameaça aparece em muitos outros filmes norte-americanos dos quais a comédia Sobrevivendo ao Natal é um emblema. Aliás, Rose faz direta referência a este título dizendo ao médico da mãe que pretende “sobreviver à noite de Natal’. Fico imaginado se fará parte da cultura americana esse pavor que inspira tantos cineastas e ficcionistas.

Sobre o tema, no filme de Palminteri há uma cena interessante, como se fosse um recorte auto-explicativo da história maior que ele conta. Rose, depois de vagar pela noite gelada de Nova York, entra num bar em tudo suspeito, que promove o concurso “porque eu odeio a noite de Natal”. Cada um vai à frente e, num pequeno palco, conta sua história. A de Rose ganha o prêmio, uma pequena e disforme árvore artificial que ela acaba destroçando em momento de muita raiva. Em seu relato para meia dúzia de perdidos, ela diz que foi nesta data que nasceu e morreu sua única filha.

Anjo de vidro, que tem este título em português em alusão a um ornamento que Rose coloca na janela do quarto do hospital, talvez possa ser visto como fragmentos narrativos unidos por um outro sentimento, além da solidão, comum aos cinco personagens que acabam interligados no final. Todos buscam um fio de esperança, mesmo quando tudo parece muito nebuloso. E fica claro que há urgência em cuidar cada um de si, até para reunir forças e conseguir cuidar dos outros mais frágeis. Anjos de aço deveríamos ser. Os de vidro se quebram muito facilmente.


DE ATOR A DIRETOR

Chazz Palminteri

Chazz Palminteri é um dos milhares de oriundi de famílias italianas que ajudaram Nova York a ser o que é. Nascido nesta cidade em 1951, filho de uma dona de casa e um motorista de ônibus, passou a infância entre no Bronx, bairro de população majoritariamente pobre. Pessoas com quem conviveu na infância e juventude o inspiraram a escrever A Bronx Tale, que não chegou ao Brasil. Inicialmente peça de teatro, foi depois adaptada para o cinema num filme cujos protagonistas eram ele e Robert de Niro. Bem acolhido pela crítica, este filme abriu as portas a Palminteri, que passou a receber muitos convites para atuar como coadjuvante. Foi assim que ganhou a indicação ao Oscar num filme de Wood Allen, Bullets over Broadway. Produziu também muitos trabalhos para a televisão americana. Vive atualmente em Bedford, com sua família. É bem relacionado com atores de primeira grandeza, como o já citado De Niro e Susan Sarandon, escolhida para o papel principal de Noel. A crítica americana disse que sob sua direção a espanhola
Penélope Cruz desempenhou um pequeno grande papel. Ela está mesmo ótima no filme, sem exageros e convincente, com a sensualidade que a distingue sempre. Com o pseudônimo Chazz de Bedford,o diretor ainda faz coberturas esportivas para uma rádio local. Seu gosto pelos pequenos papéis o levou a viver o misterioso Arizona no filme que dirigiu e está resenhado ao lado.


Serviço
Título: Noel
Em português: Anjo de vidro
Gênero: drama
Diretor: Chazz Palminteri
Elenco: Susan Sarandon, Penélope Cruz, Robin Williams, Paul Walker
Ano: 2004
País de origem: Estado Unidos
Onde encontrar: nas locadoras.

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