Cavalgada

Por: José Borges da Silva

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Eu vinha vindo por uma estradinha no meio do cerrado, há uns dois anos... Vinha da casado compadre Jerônimo. Já era pra mais de dez da noite. Vinha devagar. O cavalo estava muito cansado e já não respondia às esporas e ao rebenque... De repente apareceu um clarão numa moita adiante, acho que era uma moita de pindaíbas, cercada daquelas quiçaças que dão no cerradoà Foi coisa feia, coisa que eu nunca tinha visto aindaà Não era dessas luzinhas que aparecem nos pés das cruzes por aí nãoà Dessas que assustam caboclos nas encruzilhadas, que ficam girando no meio do matoà Foi clarão colosso, que nem incêndio na mataà Incêndio às vezes até acontece, você sabe, por obra de homem mesmo, por troça, só pra provocar danação. Até pensei que fosseà Mas, não era não... Não era mesmo. O cavalo se assustou, empinou que quase caiu para trás... Eu saltei pra cima de um barranco. Ele desembestou, desapareceu na carreira. De repente o clarão sumiu e a escuridão ficou pesada feito breu. Eu estava a meio caminho de casa e sem o cavalo, de modo que voltar não havia mais jeitoà Foi quando o clarão voltou como um relâmpago, mas dessa vez não parava de piscar. De um lado do caminho apareceu uma coisa muito grande e alta que parecia uma igreja com luzes acesasà No chão, do lado de fora, um sujeitinho cabeçudo, com olhos do tamanho de ovo de pato, olhava para mim. Suas pernas eram finas, bambas, não agüentavam direito o seu pesoà Então ele falou, assim, de um jeito sem dizer nada, que as minhas pernas eram fortes, que ele precisava andar um pouco nas redondezasà E mandou que eu chegasse perto. Não sei por que, eu não consegui nem correr nem sair dali. Cheguei mais perto. Ele pediu licença de um jeito cortês, subiu nas minhas costas e mandou que eu fosse até o córrego. Depois quis ir a um pé de araticum, lá do outro lado da grota. Ele sabia que as frutas estavam madurasà Pegou uma das mais bonitas e comeu um pedacinho, ou só cheirou, eu não sei... E me deu um pedaço. De lá fomos até um piquete bem longe dali. Lá ele me mandou soltar um cavalo que estava fechado. Falou que o animal não queria viajar no outro dia cedo não, porque estava fraco, meio doenteà Falou daquele jeito que a gente não ouve, nem escuta, mais sabeà Andamos quase a noite inteira olhando coisa por coisa no mato, na estrada, perto das casas das fazendas. Ele me ensinou muitas coisas que eu não me lembro bem. Não era coisa má. Eu não conseguia falar nada, só obedecia. Ele mandava até aos cachorros calar e eles obedeciam. Depois voltamos pra perto daquela igreja, aquela coisa muito grandeà Ele entrou e, com aquilo tudo, sumiu pros ares, como um corisco. Eu só me recordo até aí. Depois, não lembro de mais nada. Acordei na beira da estrada com o Sol alto. Fiquei cansado por uns três diasà Eu não lembro bem o que ele me ensinou, mas as pessoas dizem que eu demudei de jeito de pensar, de fazer coisasà Eu seià Eu sei que você também não acredita, não é? Até eu mesmo às vezes penso que foi um sonho umà

Antes que acabasse de completar a frase soou a sineta e meu amigo se recolheu ao seu quarto rapidamente. Acabara o horário de visitas. O hospital psiquiátrico, àquela época, o final dos anos 1970, era rigoroso com a disciplina. Soube que pouco tempo depois ele recebeu alta médica, mas, não mais voltou para a roça. Eu, que algum tempo antes me instalara na cidade, nunca mais tive notícias dele. E, tal qual ele, até hoje tenho dúvidas sobre a veracidade da história que ele me contou naquela tarde de domingo, que parece ter sido a causa de sua internação!

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