Agora que tá véia

Por: Mauro Ferreira

Ela era a menina mais bonita do colégio, talvez da cidade, naqueles tempos esperançosos de JK. Alta, longos e repartidos cabelos, escorridos e lisos naturalmente da cor de mel, olhos negros como duas jaboticabas, pernas torneadas e levemente tostadas ao sol que queimava no verão, deitada nas pedras do solário ao lado da piscina do clube mais freqüentado do lugar. Sentados nas arquibancadas que ladeavam a piscina olímpica, dezenas de garotões formavam uma sedenta e inútil platéia para o espetáculo, que se repetia diariamente todas as manhãs daqueles verões luminosos da adolescência.

Quando andava, seja nas calçadas da cidade, quando saía com a mãe para fazer compras ou com as amigas para ir ao cinema, seja nos corredores do colégio, parecia que ela estava desfilando sua elegância e beleza por um tapete vermelho, mesmo que o chão fosse na verdade um cimentado imundo ou as pedras pisadas das portas dos bares cheios de cachaceiros e bon-vivants. Seu caminhar era um primor de malemolência e sensualidade precoce, incendiando a testosterona acumulada da juventude que começava a virar transviada. Nos dois sentidos.

Inseparáveis, os dois moleques que iam diariamente do cinema ao clube onde a diversão era uma brincadeira dançante, não perdiam o desfile do séquito de sua majestade, com seu nariz de Cleópatra arrebitado e olhando ao redor superficialmente. Só havia um problema. Era muito “metida”, como diziam na gíria da época, mas muito mesmo, o moleque mais inconveniente dizia que ela era tão entojada, mas tão entojada, que cagava doce de leite.

Até que aconteceu. Num baile, um sujeito tentou dançar com ela. Levou três, quatro negativas, uma “tábua” atrás da outra. Até que ela cedeu. Quando rodopiava impávida e com ar “blasé” pelo centro do salão, o sujeito gritou bem alto, para todo mundo ouvir: “você peidou, não danço mais”. E largou-a só, no meio do salão.

Depois disso, ela sumiu. Diziam que foi embora estudar na capital, que casou, que não teve filhos. Nunca mais se ouviu falar daquele nariz emproado.

Até que, passados muitos e muitos anos, no velório de um parente dela, que era amigo dos dois moleques agora com os cabelos encanecidos, reapareceu a antiga deusa do clube e dos salões de baile. Para surpresa dos dois ex-moleques, ela foi conversar com eles, solícita, simpática, amiga, quis saber de tudo, o que faziam e o que fizeram de suas vidas. Despediu-se afetuosamente, deixando-lhes nas mãos um pequeno, colorido e perfumado cartão, com seus telefones e endereço na capital. Que a visitassem, quando fossem até lá.

Estupefatos, os dois se entreolharam, sem acreditar no que viram e ouviram. Até que o mais inconveniente, como sempre, disparasse: “pois é, depois destes anos todos, agora que tá véia e acabada, é que vem conversar com a gente?”

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