Um filme sobre heranças

Por: Sônia Machiavelli

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Alguns cineastas franceses, pelo menos os herdeiros de Renoir e Resnais, continuam mantendo seu foco na linguagem visual, imunes aos filmes comerciais norte-americanos com ênfase na ação, e, depois de Avatar, na tecnologia 3D. Um bom exemplo desse compromisso pode ser aquilatado no metafórico Horas de Verão, dirigido por Olivier Assayas. Não fosse o trabalho espetacular do diretor de fotografia Eric Gautier, a narrativa se esvairia nos vinte primeiros minutos, que é o tempo em que vemos viva a protagonista Hélène Berthier, interpretada pela elegante Edith Scob. Coube a Gautier colorir de um jeito impressionista a tela, capturando os muitos ângulos de uma idílica casa de campo próxima a Paris, onde uma família se reúne para comemorar o aniversário da proprietária. Há muito verde, a cor da juventude, como diz em entrevista Gautier, que trabalhou com o brasileiro Walter Salles em Diários de Motocicleta. Mas o filme fala mais é de morte e do modo como as heranças podem ser recebidas.

As primeiras cenas já definem o que está por vir. Hélène, que completa 75 anos, aparece cercada pelos três filhos quarentões, pelos netos e pela empregada Eloise, que tem um pouco daquela formidável criatura de Proust, a Françoise de Em busca do tempo perdido. Seu olhar cuidadoso e desvelador, ao mesmo tempo piedoso e discreto, tudo abarca sem naufragar no mar de recordações. Cabe a ela uma das cenas mais comoventes do filme, no seu terço final, olhando o desmonte da casa-personagem. Horas de Verão é principalmente uma história de desconstrução.

Hélène, que não corresponde ao modelo tradicional de anciã, revela já nas primeiras frases uma preocupação obsessiva com os tesouros acumulados na casa, sendo esta também um deles. Durante toda a existência preservou a obra de seu tio, um pintor famoso, que por sua vez havia acumulado outras obras artísticas valiosas. Diante da vida que vai chegando ao fim, ela se inquieta com o destino de tudo que reuniu. Faz completo inventário, expressa o desejo de que não haja fragmentação do todo.

A morte de Hélène, alguns meses depois, irá reconfigurar o modelo familiar. O patrimônio cultural valioso, que a falecida não desejara ver desmembrado, será uma herança que só assumirá valor emocional e estético para um dos filhos, Fréderic (Charles Berling), o mais velho, que permanece na França. Para o irmão empresário que mora na China (Jéremie Renier), e para a irmã designer que vive em Nova York (Juliette Binoche), representará um conjunto de objetos que passam a interessar pelo preço que alcançam no mercado de arte. Parte vai para antiquários, outra para o Museu D´Orsay, uma terceira para casa de leilões americana. Toda disposição e energia de Hélène em relação a manter reunidos os objetos de arte, tornaram-se ineficazes. Tudo se dispersa como a lembrar que o desejo de algumas pessoas em controlar as situações, inclusive as que se instaurarão depois de sua morte, beira o tragicômico.

A herança que uma geração deixa para outra é tema recorrente no cinema europeu. No Velho Continente, manter ou romper são dois verbos conjugados em situações caracterizadas pela dubiedade, posto que nada se resolve radicalmente para sempre. Os fatos são como as pessoas, nem sempre lineares e previsíveis; surpreende o fato de que Adrienne, a artista, não leve consigo senão uma pequena lembrança da mãe, indiferente ao mar de objetos preciosos dos quais poderia dispor; e que seu irmão economista chore na penumbra, diante da perspectiva de perder o conjunto de objetos artísticos que lhe eram tão significativos.

Um mundo se acaba, outro começa a nascer. Cada irmão viverá num continente e não se acenam reencontros fáceis. A casa desnuda e colocada à venda é palco de uma festinha regada a muita bebida. A anfitriã é a neta rebelde, detida uma vez pela polícia por furto, consumidora de maconha e de música eletrônica. O som vai alto, a libido corre solta, as frases são superficiais e curtas, a anarquia rola em patins que riscam o piso antes bem cuidado. Uma geração substitui a que se foi. Pode não enterrar as memórias, inclusive as estéticas, herdadas como legado ou ônus. Mas deseja construir as suas próprias. Isso parece irrevogável. Pelo menos é o que nos autoriza a concluir a última cena.
 

FORMAÇÃO NOS CAHIERS

Olivier Assayas

“Quem sai aos seus não degenera” é adágio que bem poderia se aplicar a Olivier Assayas. Ele é filho do mítico Jacques Rémy, um dos ícones do cinema francês. Nascido em Paris em 1955, começou profissionalmente como crítico em 1979, na revista Cahiers du Cinéma. Ali permaneceu até 1985, quando iniciou sua carreira de cineasta como roteirista, colaborando com André Techiné. Seu longa de estreia, Desordem, recebeu o Prêmio de Crítica em Veneza. Depois viriam Irma Vep, Traição em Hong Kong, Espionagem na Rede, Eldorado, Destinos Sentimentais, Clean, Carlos, além de Horas de Verão, tradução ruim para L´Heure d’été, Horário de verão.

Os Cahiers foram uma escola para o diretor, que não tem formação acadêmica. Ali conviveu com profissionais do status de um Serge Daney e de um Alain Bergala. De sua carreira de crítico de cinema, destacam-se textos sobre a então “nova” indústria hollywoodiana, que se reergueu com a revolução tecnológica perpetrada por George Lukas; sobre o estilo de Bergman; sobre política de autores; sobre David Cronenberg e o cinema de terror- entre dezenas.

O filme resenhado ao lado é fruto de uma situação interessante. Em 2006, um projeto em comemoração aos 20 anos do Museu D´Orsay previa quatro curtas-metragens que seriam lançados simultaneamente, com direção de Raoul Ruiz, Hou Hsiao-Hsien, Jim Jamursh e Olivier Asayas. A ideia não vingou e Assayas decidiu levar à tela o roteiro no qual já começara a trabalhar. Este belo museu de Paris aparece em cenas importantes do filme. É para uma de suas alas que é levada uma mesa do espólio de Hélène Berthier.

Serviço
Título: Horas de verão
Diretor: Olivier Assayas
Gênero: Drama
Duração: 103 minutos
Ano: 2009
Elenco: Juliette Binoche, Charles Berling, Jérémie Renier, Edith Scob, Dominique Reymond, Vallérie Boneton, Emile Berling.

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