A desculpa

Por: Caio Porfirio

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A bordo. Vôo sereno.
- Desculpe, senhor.
- Mandei daqui alguns beijinhos para ela.
- Desculpe, mas não devia.
- Por que, aeromoça?
- Ela é cega.
- Ah, desculpe, desculpe.

Escala. Passageiros descem. Passageiros sobem.
- A senhorita é linda.
- Senhorita, não. Senhora. Vou mudar de lugar.
- Ah, desculpe, desculpe.

Mesmo vôo sereno.
- Correndo no corredor, criança linda.
- Volta, filha.
- Estão lhe chamando. Deixe eu lhe dar um beijo. Epa, caiu.
- Ela tem um defeito no pé. Volta, filha.
- Ah, desculpe, desculpe.

No aeroporto, esperando a bagagem na esteira rolante.
- Esta mala é minha. Com licença.
- Não. É a minha. A do senhor deve ser aquela parecida que vem chegando.
- Ah, desculpe, desculpe.
Na fila, à espera do táxi.
- Não, não. Desta vez sou eu.
- Estou na frente.
- Não, senhor. Eu estou na frente. Fui apenas falar rapidamente com uma amiga. Com licença.
- Ah, desculpe, desculpe.

Chegando em casa.
- Querido, estão aí dois jornalistas. Estão esperando no seu gabinete.
- O que querem?
- Falaram numa tal de verba que lhe foi entregue não sei para que e querem saber que destino você deu a ela.
- Dispensa. Estou com uma horrível dor de cabeça. Deve ser gripe.
- Não quer se desculpar?
- Já me desculpei muito hoje.
E se trancou no quarto.

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