No sonho

Por: Luiz Cruz de Oliveira

No sonho, o alarme de um carro disparara, ele gritava, pedia que desligassem aquela geringonça. Não adiantava. Parecia que ninguém ouvia seus apelos, ninguém se importava com o barulho do alarme. Tentando esmurrar a porta da casa do vizinho, derrubou o abajur, quase caiu da cama. Acordou.

O barulho, persistia. De repente se fez luz em seu cérebro, descobriu que não havia vizinho, nem carro, nem alarme.No escuro do quarto, apenas o barulho de telefone fere seus ouvidos. Apalpa sombras, tateando o escuro, acaba por localizar o telefone, enquanto se indaga quem teria morrido.

Alô!

Oi, é o Zé da Comadre?

Não reconhece a voz e se admira de alguém ainda se lembrar de apelido seu do tempo de rapaz. Possivelmente há quarenta anos ninguém lhe chama assim.

Quem está falando?

Que é isso, Zé. Não conhece mais a minha voz?

Há mais alegria que censura na pergunta.

Desculpe, mas não sei quem está falando. Eu estava dormindo, ainda estou... Que horas são?

Sei lá, Zé.

Enquanto fala, os olhos do Zé procuram o mostrador do rádio-relógio: são três e meia. Indaga seriamente.

Quem está falando?

É o Juca

Juca? Que Juca?

O Juca, aqui do Santa Bárbara. Nós trabalhamos juntos lá no Samello, não lembra?

Não, não estou lembrado não, faz muito tempo. Como é que você achou meu telefone?

Foi o Ronan que me deu.

A mãe, a avó, a bisavó, a árvore genealógica inteira do Ronan tronco, galhos, folhas todos foram homenageados mentalmente.

Está bem... mas o que é que você deseja?

Zé, o que que você ganhou de Papai Noel?

O quê?

Eu ganhei um caminhãozinho, Zé. Só que uma rodinha da frente saiu... Eu liguei pro tio Mané você conhece ele, não conhece ? - mas ele falou que não sabe consertar, mandou eu telefonar pro Ronan. Mas não adiantou. O Ronan falou que emprestou o alicate pra você... Você vem consertar pra mim?

Onde é que você está?

Eu estava lá no Hospital do Alan Kardec, mas o doutor Danilo mandou eu embora. Agora eu estou aqui. Você vem consertar a rodinha?

Vou, vou sim... Pode ficar esperando... Não saia daí, viu?

Viu.

Zé desliga o telefone e, por via das dúvidas, retira o aparelho da tomada. Aninha-se novamente entre as cobertas, mas não consegue conciliar o sono novamente. Deve ser porque seu cérebro está demasiado ativo, arquitetando malignas vinganças.

Ah, o Ronan me paga...Ah, se paga.

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