Autorretratos de Rembrandt, Florença

Por: Maria Luiza Salomão

Basta caminhar em Florença, Firenze, para conhecer obras monumentais e detalhes da vida comezinha do velhíssimo povo italiano. Na esquina um sorvete inesquecível, com filas enormes de turistas de vários cantos do mundo, e na Praça de La Signoria, um sentimento de fazer parte da cena de um filme, como fosse eu uma figurante. Frente ao Domo, a Beleza assume cor branca para mim, rosada para outros - vejo no Domo a Noiva, jovem para sempre, imortalizada na aura fresca do fascínio que vence o Tempo.

Tudo em Florença merece ser visto, degustado, sentido, pensado. Revi o meu “chip” sobre os Médici, esta família que dominou por séculos este pedaço da Itália, de passado terrível, e que, no entanto, nos legou um acervo de Arte (digo “a nós” como espécie). A Itália guarda parte substancial da História da Humanidade sanguinolenta, ligada às ruínas (pelas Guerras e pela ação do Tempo) mas também guardiã do Perene, a Arte através dos séculos. A Memória desta História, ali conservada, é algo a agradecer aos italianos. (Como conseguiram? Como não conseguimos preservar quase nada em Franca? Do século XX até hoje!)

Entrei timidamente na Galeria Uffizi, depois de breve estudo sobre as obras do acervo. Ultimamente não quero ver tudo em um Museu, seleciono o foco. Dieta para os olhos. Quero nutri-los, e também descansá-los, poupá-los para o vital, urgente, saudável.

Ver, afinal, é o prenúncio de um conhecimento. Na Galeria Uffizi escolho onde pousar o olhar. Um guia de bolso me informa que há dois autorretratos de Rembrandt, na sala 44, e que os pés e olhos dos visitantes muitas vezes não chegam até lá, por exaustão de ver tanta beleza!

Rembrandt fez perto de 100 autorretratos. Os dois autorretratos dele, na Uffizi, estão lado a lado e me fascinaram. As datas se referem aos anos de 1629-30, ele com 23 anos, e de 1660, o pintor com 54 anos. Trinta anos separam os dois autorretratos! No jovem, o Orgulho, o olhar brilhante, uma confiança incontida, o meio sorriso que vela a ternura. O claro-escuro, marca do estilo de Rembrandt, realça a luz dos seus cabelos vermelho-acastanhados, uma auréola de promessas ao sol. O escuro está presente em boa parte do seu jovem rosto, o dark side (sombras do que será?). A figura é delicada e agrada.

Já no autorretrato, ele com 54 anos, a luz é crudelíssima e ilumina quase todo o seu rosto e o seu olhar, entediado, linhas em ondas na testa contraída (na testa jovem e lisa, cai um cacho de cabelos acastanhados). Um grande e negro chapéu, de época, esconde os cabelos grisalhos, fartos e baços, poucos fios mantêm o castanho-avermelhado de outrora. O nariz cresceu, toda a figura cresceu no quadro, temos uma figura densa, talvez tensa, e ela nos grita sofrimentos desnudos em traços e linhas. Não vejo sinal do orgulho, nem da confiança, os sobrecenhos se unem em um grande vinco de expressão, como se Rembrandt tivesse estado inúmeras vezes contrariado, ao longo da vida, e se esforçado muito para captar algo. Não há no homem de 54 anos triunfo ou vitória, nem a ternura daquele, aos 23 anos. Há um tipo de distanciamento, talvez um desalento, contrariedade.

Exercício cruel e corajoso de Rembrandt, ao se retratar, esculpida a alma (e a fisionomia) pelo Tempo, ele mesmo face-a-face com sua história. Segundo Lao-tsé, aqueles que conhecem os outros são sábios, aqueles que conhecem a si próprio são iluminados.

Rembrandt registrou sutis apreensões do cotidiano do século XVII na Holanda. Nestes autorretratos suas precisas pinceladas revelam o mais profundo claro-escuro de si mesmo. Caminho das pedras para quem está de dieta de olhos.

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