Carta aos francanos de 2112

Por: José Borges da Silva

Sei que vocês devem me achar pretensioso, um modesto membro de uma sociedade atrasada, tentando me dirigir a uma civilização tão avançada. Mas, de certo modo, o fato de vocês estarem aí, com todas as condições de subsistência, decorreu das providências que estamos tomando por aqui agora. Não digo isso para enaltecer a civilização a que pertenço, mas apenas para indicar que temos coisas em comum. Pelo menos assim espero.

Como vocês sabem, estamos debatendo a questão ambiental em várias instâncias da sociedade. Nos meios produtivos mais arejados fala-se em desenvolvimento sustentável como alternativa para não esgotarmos os recursos naturais e inviabilizarmos a vida na Terra. Nos meios jurídicos discutimos o direito das futuras gerações. Claro que há sempre os chatos que questionam esse direito, dizendo que não há qualquer sentido em nos ocuparmos de pessoas incertas, indefinidas, no tempo e no espaço... Mas podem ficar sossegados, tem prevalecido o entendimento de que somos responsáveis pelo porvir das futuras gerações! Quanto ao desenvolvimento sustentável, virou lema a sua definição constante do Relatório Bluntland, realizado pela primeira ministra da Noruega, Gro Harlem Bruntland, para a ONU, em 1987: “o desenvolvimento que satisfaz as necessidades presentes, sem comprometer a capacidade das gerações futuras de suprir suas próprias necessidades”. Não é o máximo? Estamos cuidando de vocês. Portanto, não sejam pretensiosos!

Eu sei que deve ser um saco essas minhas referências históricas, já que estando vocês aí no futuro, elas não têm mais qualquer importância, porque esse “passado” em que me encontro já não pode mais interferir na vida de vocês. Bom, aí vai um chute, porque, aí no seu tempo, pode ser que isso não seja mais verdade... É que vocês podem ter encontrado um meio de voltar ao passado e mudar os rumos do futuro... Bem, nesse caso pode haver algum de vocês aqui no nosso meio, não? Será que são vocês que estão fomentando toda essa luta para que cuidemos da subsistência das futuras gerações...? Bom, não é fácil saber... Mas uma coisa é certa: independentemente de vocês poderem ou não voltar ao passado, nós aqui podemos, sim, decidir sobre se vocês existirão ou não. Isso, olhando daqui, parece bem possível... Mas, creiam: eu quero, de fato, estar falando com vocês através desta carta, ou seja, que estejam aí. Porque acho que temos o dever ético de preservar a espécie humana. Não só a humana. Penso que temos o dever de pre
servar a vida na Terra... Putz! Eu até pareço um de vocês falando...Será? Eu, um de vocês...? Bem, nesse caso aí vai uma informação importante: não me lembro de nada! Portanto, saibam que voltar ao passado faz a gente perder a memória! Claro que essa perda da lembrança pode ser intencional... Nesse caso, podem rir! De qualquer modo, estou cumprindo bem a minha missão, não estou? Mas, acho que sou daqui mesmo. Sinto isso pela dificuldade que tenho de tratar com coisas muito modernas. Aliás, como a maioria de nós por aqui, conforme envelhecemos... Ou, será que somos todos viajantes do futuro? Mas, por quê? Enfim, acho que eu me identifico mesmo é com o passado... Quero dizer, com o presente!

Finalizando, espero que não seja apenas um chato. Espero, enfim, que gostem dos meus escritos. Afinal, estou narrando a história em tempo real pra vocês. E, pra ser honesto, estou escrevendo a vocês porque acredito que a humanidade irá melhorar. Acredito não! Tenho certeza disso. Há muita gente mudando o comportamento pra melhor, podem crer. Portanto, saudações de 2012. Aquele abraço... Com certeza!

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