Religião para ateus

Por: Sônia Machiavelli

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Estimativas de órgãos governamentais confiáveis indicam que 2,3% dos humanos que vivem no ocidente se definem como ateus enquanto 12% se dizem agnósticos. Essas taxas atingem 4% nos Estados Unidos, 7% na Itália, 11% na Espanha, 17% no Reino Unido, 20% na Alemanha, 32% na França. É neste país que historiadores localizam, no século das Luzes, da Enciclopédia e da Revolução, os primeiros indivíduos que se confessam ateus.

Conotação negativa acompanhou os que rejeitavam os deuses desde o grego Diágoras, no século V aC, ou um único deus a partir do Cristianismo. Na Europa da Idade Média, por exemplo, representou sentença de morte. Entre nós, até hoje persiste algum preconceito. Uma pesquisa de agosto de 2010, realizada pela Fundação Perseu Abramo e Núcleo de Opinião Pública, revelou que 66% das mulheres e 61% dos homens no Brasil jamais votariam em candidato ateu. À parte este viés condenatório em países de formação majoritariamente católica, nas sociedades mais cosmopolitas como a britânica vêm crescendo movimentos já caracterizados como de “militância ateísta radical’, do qual o pesquisador Richard Dawkins emerge como líder natural.

Dawkins, 70 anos, é um biólogo cuja pesquisa centrada em genes o levou a escrever diversas obras de cunho evolucionista, que produziram polêmica, como Deus, um delírio. Neste e em outros, ataca o criacionismo, concepção de mundo defendida por cristãos e judeus com base na descrição do Gênesis. Por este livro do Antigo Testamento, somos informados de que Deus criou o homem à sua imagem e semelhança. Ou seja, deixou-nos tal e qual nos conservamos até hoje, de sorte que toda teoria de Darwin seria apenas uma ficção.

É por aí, curiosamente, que dois ateus se pegam, ilustrando a verdade contida em ditado popular: “Dois bicudos não se beijam”. O outro de quem falamos é exatamente o autor do livro cujo título escolhemos para abrir hoje esta página: Alain de Botton. Filósofo suíço, 41 anos, criticou acidamente seu colega durante visita ao Brasil, no último novembro, para lançar Religião para ateus : “É inútil Dawkins ficar repetindo que as pessoas são estúpidas por acreditar em Deus(...) sabemos que a ciência, com todo o seu avanço, não conseguiu responder a algumas necessidades básicas e prementes do ser humano, como consolo, moralidade, compreensão e comunidade.”

Até parece que De Botton se converteu, mas não é nada disso. Reprovando em Dawkins a militância e o radicalismo, pontua: “Ateus precisam aprender como as igrejas se comunicaram com os fiéis ao longo dos séculos, e com muito êxito através de artes como escultura, arquitetura, pintura, música e oratória, estabelecendo um forte sentimento de comunidade onde a partilha sempre teve função também terapêutica.”

Num longo parágrafo, logo no início de Religião para ateus, ele torna claras as certezas que o movem. “É quando paramos de acreditar que as religiões foram outorgadas do alto ou que são totalmente insanas que as coisas ficam mais interessantes. Podemos então reconhecer que inventamos as religiões para servirem a duas necessidades centrais, que a sociedade secular não foi capaz de resolver por meio de nenhuma habilidade especial: primeiro, a de viver juntos em comunidade e em harmonia, apesar de nossos impulsos egoístas e violentos, profundamente enraizados. E, segundo, a de lidar com aterrorizantes graus de dor, que surgem de nossa vulnerabilidade ao fracasso profissional, a relacionamentos problemáticos, à morte de entes queridos e à nossa decadência e morte. Deus pode estar morto, mas as questões urgentes que nos impulsionaram a inventá-lo ainda nos sensibilizam .”

Religião para ateus é um livro que nos provoca pela originalidade do tema, nos convida à reflexão com seu tom coloquial, nos desperta para a possibilidade de recuperar valores já esquecidos na vida secular, nos mostra que as religiões podem estimular insights que nos levem a uma vivência com menores graus de dor. E sugere que “todas as religiões são sábias ao não esperar que lidemos sozinhos com nossas emoções.”

Mesmo para quem não acredita em Deus, entrar numa catedral, ouvir música sacra, apreciar detalhes de ícones, acompanhar o ritmo literário de um sermão, ou simplesmente deixar-se seduzir pela beleza de uma escultura dentro de um templo onde os rituais tocam os sentidos, pode representar momentos de alívio, conforto e equilíbrio.


FILOSOFIA DO COTIDIANO

Alain De Botton

“Embora eu fosse bastante influenciado pelas atitudes dos meus pais, que eram ateus convictos, nos meus vinte e poucos anos passei por uma crise. Meus sentimentos de dúvida tiveram origem na audição das cantatas de Bach, desenvolveram-se na presença de certas madonas de Bellini e tornaram-se avassaladores com uma introdução à arquitetura zen.” Este é um dos trechos confessionais com o qual o leitor se depara nas primeiras páginas de Religião para ateus. Por ele pode-se perceber o estilo peculiar do autor, acessível sem ser vulgar, com referências ricas sem aparentar presunção. Expondo tanto suas próprias ideias, como traduzindo a de artistas, filósofos e pensadores, De Botton ergue com suas palavras e seus conhecimentos ensaios bem diferentes daqueles em cuja tradição figura Montaigne. O primeiro deles foi Ensaios de Amor, em 1993, onde misturava ficção e factual. Mas foi com outro ensaio mais próximo da crítica literária, Como Proust pode mudar sua vida, que alcançou reconhecimento mundial. Posteriormente publicou As consolações da filosofia, marcado por considerações sobre amizade, inveja, desejo, inadequação. Em seguida vieram A arte de viajar, Desejo de status , A arquitetura da felicidade, Prazeres e desprazeres do trabalho. Escreve regularmente para alguns jornais britânicos. Aos domingos assina coluna no The Independent. Casado, tem dois filhos e vive em Londres.


Serviço
Título: Religião para ateus
Autor: Alain de Botton
Editora: Intrínseca
Número de páginas: 272
Preço: R$ 19,90

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