Tudo quer viver

Por: Janaina Leão

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Surge ela: clarinha, raquítica, uma pele amarelada e um olho esbugalhado. E o sotaque, daquele que acolhe a gente. Camiseta rasgada e molhada na altura da barriga e uma calça vermelha daquelas de lycra. Cabelos muito lisos, bem alinhados e presos para trás. Expressão curiosa e na boca havia poucos dentes. Sorriso de criança parecia até inocente às vezes.

Do alto dos seus um metro e meio de altura, reinava ela, soberana da pensão nordestina ali do bairro da Aclimação. Dentre uma das trinta pensões por ali existentes, essa era a mais organizada.

Dona Creuza era linha dura. Baiana de uma cidade longe do mar, mas perto dos entes amados, veio para São Paulo há trinta anos. Sessenta anos num corpo magro e ágil que ajudava a carregar minha mobília - era um sobe e desce de escadas deslizando geladeira. Ela lavava minha casa antes que eu entrasse e me dava café quentinho todo dia de manhã.

- Minha fia, tua gatinha mia assim quando tu vai trabalhar- fazendo biquinho ela imitava: Miauuuuuuuuu-uuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuu; parece que ela diz: Maiiiiiinha cadê tu?

E sorria alegre, jogando um pedacinho de pão para a felina.

E eu sorria com a simplicidade do fato que a fazia se divertir.

Olhos brilhantes e curiosos de quem a despeito do tempo já vivido - ainda sonhava!

Houve um dia que ela chegou toda feliz com um CD na mão e disse que tinha conhecido uns artistas na Praça da Sé.

—Minha fia tu precisava ver, a mulé tava com um colar cheio de penas na cabeça e o home tocava uma flauta cheia de bambuzinhos, minha fia! E me olhava fixo. Foi a coisa mais linda que eu já vi! Aí eu comprei esse CD e olha só - o moço que canta escreveu o nome dele aqui! Isso é música de índio! Tem muita força! Vou ligar pra gente ouvir!

E desse jeito ela sempre enchia a pensão de música, e gritava GLÓRIA DEUS! toda vez que chovia forte - e cantava alto e lavava roupa todos os dias. A maioria, roupas que não eram dela, mas da vizinhança que pagava por isso. Dona Creuza também trabalhava havia mais de dez anos na casa de uns japoneses:

Ô raça ruim de pagar, minha fia. Eu limpo as sujeiras dos cachorros, arrumo a casa, lavo, passo, cozinho todo dia... Dá uma dor nas costas, mas o meu patrão disse que esse mês vai ter que me pagar menos porque ta saindo muito caro pra ele. Trezentos e trinta... Ainda não dá pra ajuntar pra “mode” voltar pra minha terra. Dizia, resignada.

Seu Hugo, o dono da pensão, a chamava de “gatinha” e dizia sempre que a via:

— Oh minha gatinha, tu não pode me deixar, oxente! Se tu vai embora quem vai pôr ordem aqui nessa baianada?

E ela respondia:

- Olhe seu Hugo, não dá, eu quero me descansar lá na minha terra, porque eu trabalhei triiiiiiinta anos aqui que é só pra mode poder voltar pra lá com minha aposentadoria.

Eu via a cena se desenrolar e pensava, comparava. Quanta riqueza há na possibilidade do encontro de mundos diferentes. Dona Creuza me deixou um patrimônio de ensinamentos mas penso que nem ela sabe. Ou sabe? Chamava-me de “menina”.

— Oh menina, tu já almoçou foi? Vem cá, tu pega teu prato aí na tua casa, vem aqui que eu acabei de fazer comida. O Duda tá chegando, você almoça com a gente. E não põe tanto pó nesse café menina! Isso te dá uma coisa no teu estômago. Hoje eu to triste, vici... Tu acredita que seu Hugo deixou o cachorro dele matar uma pombinha aqui fora? Olha menina, eu num acho isso certo não sabe por quê? Tudo quer viver, não é mesmo?

Consenti com a cabeça e engoli a emoção. Lembrei dos poetas, dos doutores, mestres, e dos jogadores de xadrez... A filosofia dela era mais simples e visceral.

Nós que morávamos na pensão “nordestina” chamávamos a senhorinha de “síndica”!

Eu com meus poucos trinta anos, o tempo que ela dedicou ao trabalho. Sonhava ver Dona Creuza de mala na mão, saindo pela porta da frente, olhando com aqueles olhos de jabuticaba brilhantes e me dizendo com aquele sotaque do interior da Bahia que às vezes ainda ouço em sonhos bons:

- Xau, minha fia, eu vou pra minha terra! Cuida das plantinhas que eu te dei!

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