Como consertar?...

Por: Jane Mahalem do Amaral

“Até cortar os próprios defeitos pode ser perigoso. Nunca se sabe qual é o defeito que sustenta nosso edifício inteiro.”
Clarice Lispector


Com o passar dos anos, consigo ver com mais clareza aquilo que chamamos de defeitos. Digo com o passar dos anos porque a juventude sempre se julga mais poderosa e desejosa de estar sempre certa. As experiências vividas, no entanto, vão apontando, com frequência, para alguns “buracos” na personalidade. Acho bem irritante, em alguma conversa ouvir alguém dizer: “Eu sou uma pessoa que...” Isso sempre me leva a olhar desconfiada para o que vem depois , já que essa frase pressupõe uma visão muito petulante daquele que sabe quem é e porque faz todas as coisas do jeito que faz. É como se um olhar superior se fizesse presente e apontasse para um discernimento imbatível. E, além disso, eu sinto certa estagnação das pessoas que usam essa expressão. Pois acho que quando eu me defino, eu me congelo. Não posso ser uma pessoa sempre assim... Isso me paralisa e me enquadra em paradigmas aprendidos ou herdados os quais, na maioria das vezes, surgem apenas do senso comum e não da reflexão profunda.

Eu não posso e não devo ser sempre da mesma forma ou viver dentro de um molde. A mudança de opinião, de visão de mundo, de crenças só aparece se eu me abro para o novo. A água parada cheira mal e vira lodo. Não que eu tenha que ser volúvel e não ter opinião própria. Não é isso. É bem mais que isso: é redefinir nossa opinião a cada fato novo; é refazer o caminho depois de cada desvio; é ressignificar o velho.

Quando digo: Eu sou assim... geralmente falo de minhas intolerâncias ou ressalto minhas qualidades. Seja nas intolerâncias : “não levo desaforo pra casa”, “não gosto de mentiras” ou nas qualidades : “sou uma pessoa que só digo a verdade”, “ nunca fiz mal a ninguém”... estou sempre me colocando em patamar superior a quem me ouve e, além disso, me configuro em um personagem criado por mim, talvez como eu gostaria de ser, mas sem sustentação real.

Então, às vezes, é sobre esses tais defeitos que erguemos nosso edifício, como tão bem nos revela Clarice Lispector. E daí fica difícil cortar os nossos devaneios, pois imaginamos que nos conhecemos muito bem e, portanto nada há a acrescentar. E quem sabe o que poderá ocorrer se quisermos cortá-los sem o devido preparo...

O que entendemos por autoconhecimento vai muito além desses viciados conceitos que temos de nós mesmos. Só através de uma reflexão silenciosa, principalmente após cada atitude que nos causou desconforto, é que podemos ir caminhando em direção ao essencial. E o essencial não precisa de imagem vaidosa, nem de competência inabalável. É a construção serena de cada ato que vai desenhando o nosso edifício inteiro... É a mudança consciente sempre em direção ao Absoluto.

Envie seu texto
e faça parte do Nossas Letras