A reza brava

Por: Mauro Ferreira

Infelizmente, o prefeito se esqueceu de combinar com os russos. Na Copa de 58, quando o técnico Feola apresentou o esquema tático do Brasil contra a Rússia e o que o jogador Garrincha deveria fazer para vencer o jogo, ele virou-se para o técnico e disparou: “mas o senhor combinou com os russos?”.

Acostumado a bravatas e bazófias que anos e anos de conversa fiada no rádio lhe proporcionaram, Sidnei Rocha, ao dizer que os francanos não enfrentariam novas enchentes nos próximos anos, caiu do cavalo. A natureza cobrou rapidamente, mais uma vez e a seu modo, o espaço que lhe tiraram para os automóveis e não há reza brava nem lorota de político que dê jeito nisso. Só pra lembrar, com o dinheiro que será gasto num único viaduto daria para substituir todas as pontes que estreitam os canais dos córregos e é um dos principais motivos das enchentes atuais.

A alta velocidade da água ajuda a escoar rapidamente, mas os problemas vão sendo transferidos também para a zona rural. Algum daqueles vereadores que votam sempre a favor do prefeito sem ler os projetos de lei já se deu ao trabalho de verificar o que está acontecendo córrego abaixo? A erosão está destruindo as margens do Bagres e a mata ciliar vai embora.

Minha mãe lembra que, quando eu era criança e ainda morávamos na rua Couto Magalhães, nos reunia no quarto para rezar, os irmãos mais velhos já habilitados nas orações pelas catequistas Noquinha e Pequenina, eu apenas repetia os sons, totalmente analfabeto. No final dos anos 50, houve uma seca de grandes proporções aliada a um calor senegalesco, faltava (como hoje ainda faz, apesar das promessas de solução) água na cidade, um inferno. Meu pai raramente estava junto nestas ocasiões, pois trabalhava no banco Hipotecário durante o dia e à noite ia vender couros ou conversar sobre a Francana na Leiteria Polar. A seca continuava, terrível.

Até que, numa noite, meu pai resolveu ficar em casa e rezou conosco, pedindo para chover. Acordamos de madrugada com os raios e trovões. No dia seguinte, o vendaval era o assunto de todos, casas destelhadas, ruas nas baixadas enlameadas e alagadas, perto da fábrica Samello e da antiga Estalagem. Por algum motivo, minha mãe contou para minha avó, uma italiana muito séria, que meu pai havia orado junto e pedido para chover. No almoço familiar do domingo, antes da macarronada à bolonhesa, ela se virou para o genro: “Wilson, da próxima vez que você for rezar, não seja tão fervoroso”. Taí uma dica para o prefeito: mais fervor nas próximas “abobrinhas”.

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