Hoje, ontem e amanhã

Por: Maria Luiza Salomão

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Fazendo uma ponte presente-passado uma música, antiga, penetra surdamente no reino da minha emoção. Eu a localizo, em seguida, no youtube: é de Johnny Rivers, Do you wanna dance, hit dos anos 70.

Recordo minha vitrolinha vermelha, portátil, em 33 rotações, o vinil quase furava com o ...Do you..., e também outra, “Poor side of town”. Um quê triste nestas melodias (será que eu as sentia assim, então?), para dançar “lento”, rosto coladinho. Era assim o romance dos anos 70.

Os sexos mudaram, parece, a forma de se cortejarem. O que torna o momento de aproximação dos sexos algo mágico? Por exemplo, não aé mais prerrogativa masculina convidar a dama para dançar. Lembro-me de que pensava ser uma libertação para a Mulher, se eu pudesse convidar alguém para dançar e não me dispor, como em uma vitrine, boneca encantada, presa, à espera do chamado de um príncipe. Hoje alcanço a magia no simples convite: Do you wanna dance?.

A Dança tem poder. Seguir o ritmo da respiração, e do coração, seguir o Outro e a Música (a Arte das emoções profundas) é uma reverência ao estar (ser) vivo. Há um contato estreito, quando dançamos sozinhos ou acompanhados, com o puro existir, inspirar e expirar, pró-mover, na alma e no corpo, um vazio de atividades pensantes, um só-sensações.

Recomendo: dance mais em 2012. Se dançar não é propriamente o remédio para os conflitos particulares ou universais, não tem, todavia, contra-indicação, é grátis, fortalece músculos e a imaginação, expande a Alegria e, eventualmente, traz uma percepção ímpar, de que o Corpo nos pertence, e nos serve prazerosamente.

O Corpo talvez seja a nossa única e verdadeira possessão eterna na vida, durável e permanente até o nosso último suspiro! Movê-lo, com ou sem vontade, é um bravo Ato de exteriorizar aquilo que nos instiga de dentro, visceral, silenciosamente, e que pode nos surpreender. Dançar é atividade-limite entre o Controle e a Entrega, entre a Disciplina e a Espontaneidade. Delicado aprendizado de saber o que se possui, quando não se tem consciência do que é que se possui.

Para usufruto do Ter, necessário é reconhecer o Ser que anseia Ter.

A Terra roda e translada em torno do Sol, banhada pela Lua, sofre as marés, é blindada na sua atmosfera, presa e simultaneamente segura, articulada em órbitas, aos seus vizinhos no Universo. Ela desconhece o imprevisível e turbulento mundo subterrâneo do seu Centro, que cospe fogo, agita os oceanos, treme e fratura sua face e afoga extensões de seu corpo azul.

A Terra, veja, baila belamente nos espaços cósmicos, silenciosa e disciplinada bailarina, sem esforço, seguindo redondamente leve o ritmo futurista da balada, com seus vizinhos de ontem e de amanhã.

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