Sapateiro

Por: Everton de Paula

Eles estão acabando aos poucos. Não me refiro aos valorosos trabalhadores em indústrias de calçados. Digo é daqueles que remendavam calçados, que consertavam este ou aquele estrago, que botavam sola ou meia-sola, trocavam cadarços, engraxavam, tingiam, pregavam tachinhas e mantinham suas oficinas em lugares certos nos bairros da cidade.

O local de trabalho era bem pequeno, um cômodo mal ajeitado, uma tábua gasta e suspensa servindo de balcão, algumas ferramentas indispensáveis, bem poucas estas; uma estante em que se expunham os calçados já consertados e, num canto, um amontoado inexplicável de sapatos usados para consertar. Como ele, o sapateiro, fazia para identificá-los só viria saber mais tarde. A entrega era exata, sem erros, com o devido reparo sempre elogiado, do agrado do freguês.

O sapateiro invariavelmente era de meia idade, ou mesmo idade avançada (embora, confesso, já nem saiba mais mensurar idades para catalogá-las em meia idade, idade inteira, idoso, senil... Tantas são as medicações e autocuidados que ter 80 anos parece o mesmo que ter 50!). Idade avançada, pronto: talvez porque fossem aposentados.

Nas paredes caiadas o cartaz de um time de futebol ou de um santo. Um calendário antigo e inútil; cheiro forte de cola.

Suas oficinas eram referências geográficas (a padaria fica ali perto do sapateiro), o remendador de sapatos, este, já trazia referências familiares (ele é neto da dona Sunta, da família dos Lombardi) e até mesmo morais (pobre mas honesto).

Lembro-me de um, em especial. Sempre de camiseta branca, encardida, barba por fazer, simpaticíssimo, bonachão, instalado a quase duas quadras de minha casa quando iniciei a carreira docente no Educandário Pestalozzi, a convite do dr. Novelino e de sua filha Climene. Professor de Português, acho que na última década em que o educador valia alguma coisa na sociedade e recebia salário digno. Se disse que os sapateiros estão acabando, o professor com esse status já nem existe mais. E vem o nosso atual governador dizer que aulas é para quem gosta, e quem quiser fazer carreira com salário razoavelmente bom que procure a rede particular!

Mas esta é uma outra história. Voltemos ao nosso foco.

Normalmente o sapateiro pegava os sapatos para remendar, anotava a lápis na sola o conserto a fazer e entregava ao freguês um papel para a retirada.

Certa tarde fui à sapataria perto de casa para buscar um par de mocassim. Não havia levado o tal pedaço de papel. Sem hesitar, ele apanhou um pacote no meio de dezenas deles com etiquetas, que estavam numa estante, e me entregou. Curioso perguntei:

- Como é que o senhor sabia que estes eram os meus sapatos? Não lhe disse o meu nome!

Ele apanhou uma etiqueta em que se lia “professor do Pestalozzi”. Lembrei-me então de que eu lhe havia falado, meses atrás, que estava dando aulas no Educandário do dr. Novelino.

- Mas e os outros fregueses?

Ele me mostrou as etiquetas: “moça do sábado” (só vinha aos sábados, explicou ele), “rapaz sem dente na frente”, “faladora”, “menino esperto”, “morador na praça da igreja”, “dono do cachorro marrom”, “contador de anedotas”, “palmeirense” etc. Não consigo me lembrar dos nomes, disse ele mas me lembro muito bem das pessoas.

Explique-se este comportamento mental!

Mudei-me de casa e de bairro. O tempo passou. Eis-me docente na universidade. Um dia, vi com desgosto que um par de sapatos preferido apresentava a sola gasta. Queria conservá-lo. Voltei ao local de meu antigo sapateiro. Não havia mais nem sapateiro, nem sapataria: derrubaram o cômodo e instalou-se uma pastelaria. Ninguém soube me falar do remendador de calçados.

Não vejo mais sapatarias na cidade e com o atual salário de professor, ando precisando cada vez mais delas.

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