Meia-noite em Paris

Por: Sônia Machiavelli

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O calendário marcava janeiro de 1903 quando a escritora norte-americana Gertrude Stein, então com 29 anos, chegou a Paris e se instalou no número 27 da Rue de Fleurus, no 6ème , sem imaginar o quanto aquele endereço se tornaria lendário nos anos que se seguiriam. Sua importância estaria diretamente relacionada ao fato de a casa se tornar ponto de encontro de alguns artistas geniais que, oriundos de países diversos, por uma dessas coincidências formidáveis reuniram-se de repente no mesmo espaço, na mesma época, e redefiniram as artes, da literatura à pintura, passando pela música, fotografia, cinema.

No começo dos anos 20, a lista dos frequentadores de Miss Stein, já referenciada pela invenção da escrita automática que lhe determinou um estilo peculiar, registrava nomes como os do compositor Cole Porter, do cineasta Luís Buñuel, do fotógrafo Ray Man, do ficcionista Scott Fitzgerald, de sua mulher Zelda, do escritor Ernest Hemingway, dos pintores Salvador Dali e Pablo Picasso, de muitos outros artistas que buscavam se expressar de forma renovada. Naqueles corações e mentes gestavam-se então obras icônicas como True love, Um cão andaluz, O Grande Gatsby, O Velho e o Mar, A Persistência da Memória, Les Demoiselles D´Avignon, títulos que remetem à arte de valor perene. Isso sim era o tal “crème de la crème” de uma geração a quem Gertrude adjetivou “perdida” no seu importante livro de memórias Autobiografia de Alice B. Toklas, leitura fundamental para quem queira entender como se formou a vanguarda ocidental dos anos 20 do século passado.

Ouso pensar se não foi este livro essencial para todo artista a fonte onde Woody Allen bebeu a primeira inspiração para seu filme Meia-noite em Paris, indicado na última terça-feira ao Oscar nas categorias Melhor Filme, Direção e Roteiro. Pois a história que conta reúne todos os artistas citados acima, ora na casa de Gertrude, ora em outros locais da cidade, tornada mais que cenário. Paris acolhe, estimula, interage, seduz e se impõe como personagem.

Do que nos fala o filme? De um jovem roteirista norte-americano de nossa época, Gil (Owen Wilson), que em viagem de passeio a Paris é tomado por sensação de insegurança quanto ao texto que escreve e aos afetos que nutre pela noiva Inez (Rachel McAdams), moça superficial e consumista que o acompanha. Antes que o sentimento de desconforto se agrave, as doze badaladas de um relógio o salvam, embarcando-o numa viagem ao passado. É aí que entram Gertrude e a Geração Perdida.

Sem explicar em nenhum momento se a viagem de Gil resulta de um devaneio, de uma alucinação ou de uma jornada fantástica, Woody Allen conduz o relato com leveza , recriando uma Paris pulsante de vida para o itinerário noturno do heroi, que volta a cada manhã para o hotel com a certeza de que viver nos anos 20 seria maravilhoso. Até que numa dessas badaladas de sésamo, ele se vê mais uma vez no passado e em mais uma festa movimentada onde conhece uma das amantes de Picasso, Adriana (Marion Cotillard, atriz extraordinária que fez Piaf no filme homônimo). Ela o frustra e desconcerta ao observar que as pessoas do começo do século XX não se sentem assim tão eufóricas como a ele parece. Ela própria confessa que preferiria viver no final do século XIX. O diretor mostra aí outra volta, ao passado do passado, de forma a nos sugerir que épocas anteriores àquela em que vivemos nos parecem mais interessantes talvez porque as idealizemos, enquanto o presente tem de ser vivido de forma realista, o que inclui naturalmente o tédio. Sob este aspecto, a obra é um estudo da nostalgia, encontrando saídas saudáveis ao protagonista que busca lugar para suas aspirações românticas e acaba por descobri-lo no presente, a preço que inclui tomada de atitude e mudança de rumo.

Dos filmes do diretor, este talvez seja o mais linear, o que não significa que seja simples. Como sempre, é nos diálogos que a inteligência e o humor do cineasta revelam seu olhar incisivo e desvelador sobre seres, lugares , arte e tempo. Só pelas falas já mereceria um prêmio.

O desempenho dos atores, os ângulos da Paris contemporânea, a reconstituição do mobiliário e do figurino dos anos vinte, os detalhes habilmente capturados pela câmera, o ritmo com que se conta a história e até a pequena participação de Carla Bruni : tudo vale a pena neste filme que brilha como joia. Encantador e imperdível para quem se permite mobilizar pela beleza e pelo sonho. Porque, no fundo, é disso que trata Woody Allen em Meia-noite em Paris.


COMÉDIAS E DRAMAS

Woody Allen

Woody Allen começou a carreira aos 15 anos, escrevendo textos cômicos para jornais e programas de rádio de Nova York..

Seu primeiro trabalho para o cinema foi como roteirista de um filme que fez muito sucesso no Brasil no começo dos anos 70: O que é que há, gatinha? Logo depois estrearia como diretor em Um assaltante bem trapalhão. De lá para cá foram mais de trinta filmes, a maioria deles comédias inteligentes. Mas houve derrapadas depois de Noivo neurótico, noiva nervosa, pelo qual recebeu quatro Oscars, um deles para Diane Keaton, com quem se casou e a quem escolheu para atuar num de seus clássicos, Manhattan.

Entre Hannah e suas irmãs , recebido com louvores pela crítica, e A rosa púrpura do Cairo, enorme sucesso de bilheteria, Allen se divorciou, casou, voltou a se divorciar e por fim, em 1997, se uniu à enteada Soon Yi, com quem ainda vive. À parte a vida amorosa, nos filmes foi se definindo pela retomada de velhos temas tratados de maneiras diferentes, o que o alça à categoria dos grandes diretores com marcas autorais.

Depois de encerrada a fase opaca em que trabalhou para a Dream Works, decidiu reatar seu namoro com o drama, rompido há 17 anos. Fez Melinda, Melinda e o aclamado Match Point, com Scarlett Johanson, atriz com quem voltaria a trabalhar em Vicky, Cristina, Barcelona, filme tão comentado como premiado. Por falar em prêmios, o cineasta não gosta de ir recebê-los, mas gosta de contá-los. Já somam dezenas e os próximos podem estar a caminho. Meia-noite em Paris merece da Academia as três estatuetas da indicação. (SM)


Serviço
Título original: Midnight in Paris
Lançamento: 2011
Direção: Woody Allen
Atores: Owen Wilson, Rachel McAdams, Kurt Fuller, Mimi Kennedy, Marion Cotillard, Michael Sheen, Kathy Bates
Duração: 92 minutos
Gênero: Comédia
Onde encontrar: nas locadoras
 

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