Ser peregrino

Por: Jane Mahalem do Amaral

Peregrinar, segundo o dicionário, é viajar ou andar por terras distantes, correr por diferentes partes, ir em romaria por lugares santos ou de devoção. Temos uma imagem, de livros que lemos ou filmes que vimos de um homem magro, maltrapilho, andando descalço ou com velhas sandálias por entre estradas poeirentas. Ele não tem nada e nada carrega consigo. Deixou para trás sua família, seus pertences e parte em busca de algo. Para nós, civilizados urbanos, é uma figura grotesca, quase incompreensível. Dá-nos um pouco a sensação de demência.

O peregrino que desenhamos na nossa imaginação possivelmente pode nos despertar desprezo, pois tudo aquilo que não compreendemos bem com o coração, nos causa repulsa. Não suportamos essa diferença tão grotesca. Podemos também ser invadidos pela compaixão, mas somente por aquela compaixão vaidosa que se coloca acima, bem acima daquele estranho ser incompreensível para o meu mundo.

Vejamos, porém, a definição de peregrino do autor Jean-Yves Leloup: “De passagem sobre essa terra, é preciso descobrir o sentido dessa caminhada e desse cansaço que, por vezes, nos assalta nesta ou naquela curva da estrada.”

Aproximando o olhar desse peregrino, surpreendo-me. Sou eu que lá estou a caminhar, às vezes por belas estradas e outras vezes por íngremes caminhos. Somos todos peregrinos, passantes por essa existência, buscando um sentido para essa vida. Acontece que perdemos essa consciência do peregrino. Passamos toda a nossa vida ao lado de nossa vida. Conhecemos as coisas, mas não sabemos o que fazer com elas. Temos medo do silêncio e fugimos da solidão. Pensamos que o barulho que nos envolve pode nos salvar. De quê? Temos medo de encontrar a nós mesmos. Andamos por um caminho, sem tempo para olhar, pois precisamos chegar. Mas onde?

O peregrino, quase sempre, não procura um destino. O seu propósito é cada passo. O que ele busca é ele mesmo. Caminhando, ele dá tempo ao Essencial e quando faz isso, consegue sair das aparências, do improvável. A solidão ruim é a do exílio, da separação, mas a boa solidão é estar bem consigo mesmo. “O importante na vida não são os acontecimentos que nos acontecem, mas como aceitamos e olhamos esses acontecimentos”. Como nós, a cada dia, o peregrino enfrenta alegrias e lágrimas, sol e chuva, poeira e sombra. A tudo ele abençoa porque seu olhar vislumbra mais do que uma simples viagem. Ele sabe que essa caminhada terrena terá um fim, mas o peregrino vai além. Ele se reconhece eterno.

Temos muito a aprender com esse caminhante. A cada dia um passo a mais com a consciência da impermanência. Olhar com cuidado para esse caminho. E, principalmente, nos perguntar qual é o sentido da jornada. Teremos a resposta quando encontrarmos o silêncio do peregrino.

PS. Quem quiser se aprofundar nessa vivência do peregrino, o livro: Relatos de um Peregrino Russo. Autor: Anônimo do século XIX, com prefácio e explicações de Jean-Yves Leloup -Editora Vozes. Esse peregrino “anônimo” foi companheiro de Dostoiesvski, Tolstoi, Pasternak e mais uma multidão de pensadores eminentes.

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