Azuis

Por: Hélio França

Eduardo Pereira MonteiroO dia amanheceu maduro em sol de primavera. Dourado como o mel. Seria outra manhã apenas, não fosse o olhar estupidamente repousante e delicado, azul sanhaço mesmo, daqueles capazes de envolver numa aura de emoção o mais insensível dos homens. Não há mau humor que resista. Disseste: bom dia, papai. Mas meus ouvidos, mais que ouvir, sentiram, se é que existe esta possibilidade. Compreendi obviamente que era um ótimo dia, não pelo teu sorriso, muito menos pela voz meiga do cumprimento, mas porque as duas safiras faiscantes encrustadas no teu rosto deram um flash na manhã, ritmo ao coração, e rumo à minha alma. Assim têm sido todos os momentos em que olho para ti. Finjo às vezes que não me arrasas tanto, para fazer charme ou mantê-la sem saber totalmente que me derreto todo. Afinal tens somente oito anos, muito nova portanto para comandar os sentidos de um de um pai sessentão a ponto de deixá-lo em estado pastoso, quase liquefeito. Se me olhas e piscas então, o que vejo não é sua pálpebra em movimento, mas a asa de uma borboleta azul em voo incerto, degustando aqui e ali a alegria da primavera !

O raio de luz que o sol emite, quando choca com teus olhos, provoca um verde água digno dos mares caribenhos. Como nas asas dos sanhaços, o azul vira verde e vice-versa. A magia dos tons inebria o olhar e confunde a mente, que teima em não acreditar que possa existir tanta variedade de cores dentro de um único azul. O mundo, deserto então, até tua chegada, fez-se oásis aos meus olhos quando surgiste das areias escaldantes da vida, para saciar minha sede de êxtase. É a miragem possível. Mora em teu olhar !

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