Memória de ouro

Por: Everton de Paula

E é só a partir de uma certa idade.

Sempre fui bom aluno em História, muito embora nossa professora insistia em repetir nomes como Tigre, Eufrates, Mesopotâmia ... Nunca me serviram para nada, a não ser, hoje, identificar uma certa região do Iraque. Ou seria do Irã?

Bem, o certo é que sabia de cor toda a trama da Inconfidência Mineira, ocorrida em Sabará, Marabá, ou Costa Rica , Ouro Velho, Mariana, ou coisa que o valha. Bem fez Tiradentes em revogar a lei do enforcamento, quando exercia o seu mandato de governador da Província das Minas Geraes. Enforcamento foi um ato brutal pelo qual se fazia a justiça com as próprias mãos. Ou com o pescoço. Tiradentes, cujo nome era José Joaquim Silvério dos Reis (este não seria o nome do traidor? Não, não, o traidor foi Judas), revoltou-se contra as leis do império e deu no que deu.

A primeira missa, no Monte Santo, ali na divisa da Bahia com Minas Gerais, havia atraído muitos bandeirantes, embora estes fossem protestantes; afinal , protestavam contra o envio das pedras preciosas, escondidas em arcas de pau-brasil, para os espanhóis, em caravelas portuguesas. Protestavam contra tudo. Por isso é que fomos invadidos pelos holandeses. Se não estiver enganado, foi exatamente assim que aconteceu.


Quando começo a demonstrar todo o meu conhecimento histórico às minhas filhas, estranhamente elas se entreolham e começam a sair, uma a uma, com um olhar de comiseração. Nunca entendi por quê!

Essa geração, esses jovens de hoje, deviam estudar mais para acompanhar as nossas lições e lembranças de nossa época de escola. Os jovens de hoje não conseguem acompanhar a riqueza de detalhes e a velocidade do nosso pensamento. Mas, com o tempo, eles vão aprender.

Colegas já me chamaram a atenção, dizendo que não é bem assim que eu estou falando. E aí eu lhes pergunto: - Com quem você estudou História do Brasil? E eles, cabisbaixos, fazendo círculos no chão com a ponta do sapato, respondem: - Foi a dona Noquinha... Pronto, é suficiente para todos dizerem: -Não, não, essa é outra professora! A nossa professora de História foi a dona Carlinda... Ou teria sido a dona Branca? O seu Chafi , não, esse era de Português. Eu me lembro como se fosse hoje: o dr. Palermo andando pelos corredores do Champagnat, dirigindo-se à sala de música Como tocava bem piano... Mas o professor de Música era o seu Roberto, o da fanfarra... Não, meu querido, esse era de Química ...

Dizem que Franca foi fundada pelo Chiachiri, o velho. O novo fundou o museu. Tenho minhas dúvidas. Confiando em minha memória, Granduque José teve alguma participação, se não na fundação, ao menos na abertura das estradas para passarem os carros de boi repletos de açúcar (ou seria de farinha?), em direção às terras de Goiás. Foi ele e o Barbosinha que colocaram os paralelepípedos e plantaram os coqueiros imperiais. Um deles ainda resiste em frente à Unimed. O bosteiro da Consolação, aquele monumento perto do Galo Branco, é prova material inconteste da passagem dos bandeirantes pela terra do capim formoso.

- Mimoso!

- Como é que é?

- Mimoso; terra do capim mimoso!

- Não, aí você está falando do café. O café mimoso plantado e colhido em Franca.

- Mas, escuta, o Granduque José não foi aquele prefeito que inaugurou a concha acústica?

- Não, este foi o padre Leonel Franca, aliás o primeiro bispo da comarca! Grande benfeitor da cidade.

E assim vai. Esses meus colegas de escola e de idade têm uma memória de ouro, afiadíssima. É lá e cá, pergunta e resposta na ponta da língua!

Pérolas de ensinamento histórico preciso, fundamentado na mais perfeita organização mental que um ser humano possa carregar consigo.

Às vezes, as palavras nos confundem. Perto de São José do Rio Pardo, cidade cuja prefeitura construiu uma ponte para saudar a chegada gloriosa de Euclides da Cunha, autor de Os sermões, há um motel, duramente criticado pelos católicos do lugar. Não me esqueço do nome desse motel, que fica logo à entrada da Meca do Euclidianismo: Motel Cristo Rei. Dá para acreditar?

Esse era o assunto do meu último discurso. Euclides, não o motel. O público, ali, ganancioso de palavras, crítico, duro, atento. Falei de improviso. Falei, falava, e sabia que não estava entrando no tema proposto. Dali meia-hora, só pude dizer:

- Meus amigos, havia meia-hora só eu e Deus sabíamos o que eu iria dizer. Agora, só Deus é quem sabe!

E como diz um verdadeiro amigo do peito, se algo neste texto parecer conhecido ao leitor, não estranhe: parte dele foi extraído de um texto publicado em 2005, ano do centenário da cidade. Como podem ver, já é um pouco de cansaço... Ou seria tédio?

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