‘Os homens que não amavam as mulheres’

Por: Sônia Machiavelli

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Em cartaz na cidade, Millennium - os homens que não amavam as mulheres tem atraído público surpreendente. Acredito que contribuam para o interesse o nome do diretor David Fincher, cujo cinema autoral já é referência; duas indicações ao Oscar; e a unanimidade da crítica nos elogios a Rooney Mara, intérprete da “garota com o dragão tatuado”, versão livre para o título original inglês. Sem ela, que teve rápida aparição em A Rede Social, a história provavelmente teria sua importância reduzida. O filme transpõe para a tela o primeiro livro da trilogia Millennium, do escritor sueco Stieg Larsson, que já vendeu 50 milhões de exemplares. Também jornalista e ativista político, Larsson morreu em 2004, aos 50 anos, de ataque cardíaco, pouco depois de entregar os originais de sua ficção para a editora que os havia comprado.

Lisbeth Salander, a garota, tem 21 anos, é investigadora e prodigiosa hacker. Vive sob tutela do estado, tendo passado por quatro famílias sem se adaptar. Considerada insociável, exibe visual marcado por excessos. Seus piercings, tatuagens e penteados exóticos são moldura para o rosto, paisagem que incomoda pela ausência de expressão. Para torná-la crível, o desafio imposto a Rooney Mara foi fugir da caricatura, o maior dos riscos nesta composição marcada também por sexo e violência. Isso posto, é notável seu trabalho para configurar a personagem de ar estranho, resvalando pelo bizarro, que aceita ser assistente de Mikael Blomkvist, interpretado por Daniel Craig.

Blomkvist é jornalista de economia de uma revista chamada Millennium. Ao publicar matéria onde desmonta esquema financeiro criminoso, coloca holofotes sobre um homem poderoso e se vê numa situação complicada. Acusado de difamação e desejoso de restaurar sua honra, aceita proposta de rico industrial sueco que confia na sua competência. Henrik Vanger ( Chritopher Plummer) deseja descobrir o que aconteceu a sua sobrinha Harriet, 16 anos, desaparecida em condições misteriosas quatro décadas atrás. Em busca de informações, Lisbeth e Blomkvist descobrem que no período em que Harriet desapareceu, algumas moças foram vítimas de crimes sexuais na mesma comunidade. Na maior parte da empreitada, a capacidade de resistência da dupla é testada a uma potência quase insuportável para o espectador. Ainda que o desfecho seja antecipado ao público, o final traz surpresas. Ele coloca mais luz sobre Lisbeth, cujo relacionamento com homens de caráter duvidoso, a começar pelo pai apenas mencionado, parece estar na raiz de sua inadequação ao mundo e às pessoas.

Mesmo para os que defendem a ideia de que uma obra de arte deve ser analisada apenas em seus elementos estruturais, uma observação externa pinçada de entrevista dada pela viúva de Stieg Larsson é bastante significativa. Reconstruindo relato do marido, Eva Gabrielson revelou que quando muito jovem ele havia presenciado o estupro coletivo de uma garota de 14 anos. Sem condições de reagir, omitiu-se e carregou sentimento de culpa por muito tempo. A criação da jovem hacker seria uma forma de dar visibilidade a todas as mulheres que nas sociedades modernas ainda continuam vítimas de machismo e violência. Armá-la para a vingança, e tirar a máscara a monstros fálicos, seria um jeito de fazer justiça. Não por acaso, o nome escolhido para a protagonista é o mesmo da jovem a quem o escritor achava dever uma reparação na vida real: Lisbeth.

Qualquer comentário a respeito de Millennium fica incompleto caso não se faça referência à fotografia e à trilha sonora. Os tons escuros, oscilando entre o negro, o cinza e o branco encardido do inverno sueco são contribuição importante para acentuar o clima de enregelamento emocional que caracteriza quase todos os personagens: nota máxima ao diretor Jeff Cronenweth, outro indicado ao Oscar 2012. Quanto ao som, ressalte-se a abertura com a música de Led Zeppelin, Immigrant Song, em batidas viscerais de Trent Reznor e Karen O, banda cover da Yeah Yeah Yeahs. O ritmo realça as imagens iniciais, que lembram massa escura e viscosa, talvez lodo, da qual emergem vultos, detalhes, ícones e personagens. É o aviso de que o filme não serve a estômagos delicados.


VOCAÇÃO PRECOCE

David Fincher

Americano de Denver, nascido em 1952, David Fincher revela que começou a fazer filmes aos 8 anos, brincando com a câmera de seus pais. Mas foi 10 anos depois, vendo O Império contra ataca, de George Lucas, que se sentiu impulsionado a buscar uma linguagem própria para se expressar como cineasta. Aos 21 estava nos estúdios que produziram O Retorno de Jedi e Indiana Jones. Por um tempo trabalhou também com publicidade e produziu clipes para artistas famosos como Madonna , Paula Abdul e Aerosmith.

Como produtor de Longas, estreou com Alien 3, em 1992, experiência ruim sob dois aspectos: o diretor teve problemas com sua equipe e o filme foi mal recebido pela crítica e pelo público. Decidiu voltar à publicidade e aos clipes.

Três anos depois dirigiu Seven, com Brad Pitt, que lhe abriu caminhos. Vidas em jogo, com o veterano Michael Douglas, lhe trouxe mais prestígio em 1997. Mas foi Clube da luta, de 99, com sua voltagem violenta, que alçou seu nome ao nível dos grandes, apesar da polêmica e da fraca bilheteria. O sucesso estrondoso viria com o lançamento em DVD.

Estilo definido, fez Quarto do pânico, com Jodie Foster, em 2002; Zodíaco, em 2006; O curioso caso de Benjamim Button, em 2008; A Rede Social, em 2010.

Com The Girl with the Dragon Tatoo, resenhado ao lado, conseguiu realizar o sonho que começou ao terminar a leitura do livro de Stieg Larson, Millennium. Entre seu planos para este ano inclui nova versão para o cinema de Cleópatra. Também já disse que quer levar para a tela a aventura Vinte mil léguas submarinas, de Jules Verne.

Serviço
Título: Millennium, os homens que não amavam as mulheres
Diretor: David Fincher
Onde: Cine Franca 1
Horários: segunda a domingo: 14h10, 17h20, 20h30
Gênero: drama/suspense
Duração: 157 minutos
 

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