Tempo esgotado

Por: Mirto Felipim

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Quando Gabriel Gattos, no seu estado agônico, lembrou-se de tantas pessoas e ocasiões que desperdiçara, sem nunca ousar perdoar alguém ou algum fato, por absoluta convicção de sua razão, quedou-se inútil no impedimento de qualquer gesto.

Hirto, no derradeiro leito doméstico, pressentiu a presença de Natividade Barros, eterno vulto perambulando pela casa, e o cheiro do incenso da despedida, esparzido no ar derradeiro que lhe era concedido, e quedou-se convicto.

Tentou num átimo de lucidez imóvel reconsiderar todas as condenações praticadas com absoluta clareza, nos seus infalíveis julgamentos terrenos.

Naquele momento de despedida compulsória, sem possibilidade alguma de movimento, percebeu estarrecido a monstruosidade absoluta de seus atos. Não poderia mesmo ter-se dado ao luxo de perdoar ninguém, concluiu. Passara a vida inteira na cegueira de sua sabedoria absoluta, totalmente estúpida agora, condenando seus pares, que se esquecera de condenar e perdoar a si próprio.

Amargamente se descortina no ocaso imperativo a verdade inconteste: o único necessitado de perdão, do próprio perdão, sempre fora ele. A impossibilidade de voltar às mesas e se declarar culpado por tantos venenos e omissões, espertezas e julgamentos funestos umedece seus olhos inutilmente alertas. Queria tanto poder pleitear a anistia ampla de sua consciência. Mas seu tempo acabara.

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