O filho do Arruda

Por: Chiachiri Filho

Baixinho, gordinho, cigarro na mão e, na cabeça, chapéu de feltro com abas curtas, o Dr. Antônio Arruda, famoso advogado de Franca, deixou três filhos. Belmiro era um deles. Alto, moreno, corpo de atleta adquirido nas piscinas do Clube dos Bagres, Belmiro era simpático, comunicativo, expansivo e peralta. Formou-se em Direito, mas não exerceu a profissão. Participou do TUFRA (Teatro Universitário de Franca) e, com muito sucesso, desempenhou o principal papel na peça intitulada A Reforma. A partir de então, sentiu que a sua verdadeira vocação era o teatro. Foi para São Paulo em busca de seu espaço nas artes cênicas. Posteriormente, fixou-se na zona serrana do Rio de Janeiro onde, em seu sítio, dedicou-se à ecologia e a uma espécie de religião denominada Cultura Racional.

Belmiro faleceu recentemente em virtude de um acidente automobilístico. Morreu novo, mas deixou muitas histórias para serem contadas pelos seus contemporâneos. Numa delas, Belmiro vestia-se com um capote preto, um chapéu da mesma cor, uns dentes de vampiro, uma mecha de algodão no nariz e, tendo um cajado nas mãos, saía altas horas da noite pelas ruas da cidade. Caminhava lentamente, arrastando uma perna, todo encurvado sobre si mesmo e, quando encontrava um transeunte solitário, ele levantava os braços, mostrava seu rosto adornado pelos caninos protuberantes e a mecha de algodão e soltava um grito de terror. O cidadão, assustado pela figura horripilante, fugia, corria, tremia e se apavorava. Durante um bom tempo, Belmiro utilizou-se do disfarce para aterrorizar os pedestres pelas ruas escuras e becos da cidade. Certa feita, porém, ele resolveu arriscar-se em plena Praça Barão. Não assustou ninguém, não obteve o sucesso desejado. Ao contrário, ele é quem se apavorou ao lhe ser arrancado o chapéu e o capote pelas mãos do Sr. Durval Tavares do Canto. Durval, ao despir-lhe a fantasia, exclamou com muita tranqüilidade:

— Ora! Ora! Mas é o filho do Arruda !

E assim terminou uma das aventuras do inesquecível Belmiro Arruda Neto.

Envie seu texto
e faça parte do Nossas Letras