Uma história sem resultados

Por: Jane Mahalem do Amaral

Parábolas são histórias que querem ensinar algo. Por meio de uma comparação, representam uma coisa para dar ideia de outra. Dizem os textos bíblicos que era assim que Jesus ensinava.

Li outro dia uma dessas histórias que muito me levou a refletir. A narrativa é mais ou menos assim: um homem que morava no campo sonhou certa noite que Deus lhe apareceu e lhe deu um trabalho. Todas as manhãs, quando se levantasse, ele teria que empurrar uma grande rocha que ficava em frente a sua cabana. Sem mais explicações, o trabalho era apenas esse. Por anos e anos, o homem cumpriu seu dever e nenhum dia reclamou ou duvidou da sua missão. Mas um dia (e sempre tem esse dia!), apareceu-lhe, também em sonho, o Satanás que vinha lhe dizer da bobagem que ele estava a fazer anos a fio. “Não vê que você está a empurrar essa rocha todos os dias e nada aconteceu até hoje? Você não percebe que esse é um trabalho inútil, pois você nunca irá ter força suficiente para mover essa rocha?” O homem, cansado que já estava daquele trabalho diário, começou também a duvidar e pensou que talvez fosse isso mesmo: aquela rocha nunca iria se mover. Naquela noite, porém, Deus lhe apareceu novamente em seu sonho e lhe perguntou se ele estava bem, realizando sua tarefa. O homem aproveitou a oportunidade e respondeu que ele já estava cansado de fazer aquele trabalho, pois nunca via nenhum resultado. “Acho que estou me esforçando por nada, pois por mais que eu empurre essa rocha ela nunca se movimentou um milímetro sequer durante todos esses anos. Eu falhei, Senhor!” Deus, então, olhou-o carinhosamente e lhe respondeu: “Veja como você ficou mais forte. Suas pernas e braços estão fortalecidos, suas mãos estão calejadas mas firmes, sua cor está bronzeada pelo sol da manhã e você desenvolveu sua obediência e disciplina. A rocha não se moveu, mas eu nunca lhe pedi que a movesse. Eu apenas lhe ordenei que a empurrasse, o que você fez com muito empenho. Isso foi o mais importante. Você não falhou. Você fez a sua parte. Agora sou eu que vou movê-la.”

Acontece tão frequentemente em nossa vida... Fazemos tudo, apenas visando o resultado final. Para essa sociedade competitiva, temos que mostrar o produto pronto e acabado que vai revelar a nossa competência. Então, se conseguimos, nos enchemos de vaidade e nosso ego se vangloria: “Eu fiz isto. Fui eu o responsável por esse projeto. Se não fosse eu, nada teria acontecido! Modéstia à parte, foi por causa do meu trabalho que tudo deu certo...” É assim o comportamento egocêntrico. É isso que esperam de nós e, consequentemente, é isso que também esperamos de nós mesmos. Quando não há resultado visível para ser mostrado e avaliado, sentimo-nos fracassados.

E é a essa a reflexão que a história nos conduz. Somos incapazes de viver o processo sem expectativas. Apegamo-nos ao resultado e, erroneamente, acreditamos que tudo depende de nós, que temos o controle, quando na verdade, sempre o mais importante é justamente aquilo que não podemos controlar. Mas fazer algo sem esperar por resultado não seria uma insanidade? Na nossa visão autocentrada, sim, mas olhando além dessas simples perspectivas visíveis, podemos dizer que não, pois exatamente quando nos desapegamos do resultado final é que adquirimos lucidez. Fazer o que nos cabe, da melhor forma possível, e entregar ao universo para que a realização se faça segundo sua vontade. Levantar as velas do barco, essa é a nossa parte. O vento é a graça que só fará o barco navegar se ele estiver com as velas içadas.

E ainda que a rocha não tenha se movido, como seria bom se pudéssemos nos alegrar apenas por termos tentado e por nos saber fortes.

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