Ranzinza

Por: Luiz Cruz de Oliveira

Há cerca de dois meses, escrevi o texto, mostrei a um colega:

Ruas perigosas

- Ando permanentemente com um cassetete na mão.

- O senhor é policial?

- Não, não. Eu tenho é medo de cachorro.

O colega foi franco.

- Não publique isto. Além de não ter qualquer valor literário, ainda confirma que você está cada dia mais ranzinza.

- Ranzinza, eu!?

- Claro. Só você não percebe. Mas olhe os seus textos. Você fica reclamando das calçadas irregulares, dos ciclistas que correm nas calçadas, dos motoristas que desrespeitam o semáforo, que transitam na contramão... Pode até ser que isso tenha aumentado, mas foi sempre assim... Aceite a vida, não seja tão ranzinza.

Disposto a fazer autoanálise, joguei o rabisco na gaveta, postergando sua publicação.

Mas retomei o texto esta semana porque uma vizinha foi mordida por um cachorro. Sofreu vexame e dor na rua, na fila do pronto-socorro, na maca. Sofreu as picadas de agulha.

Recorreu a mim.

- Você é escritor, escreve uma carta pro Prefeito, pede pra ele acabar com a cachorrada na cidade.

Fiz ponderações e, a custo, convenci minha amiga de que Sua Excelência certamente tem coisas mais importantes a fazer do que evitar que matilhas vagueiem pelas ruas. Além disso, deve estar pressionado, pois a sociedade protetora dos bichos, sempre humanitária e atenta contra o sofrimento, é extremamente vigilante.

A mulher gostou do adjetivo vigilante. Resolveu protocolar reclamação junto à Vigilância Sanitária.

- Você me ajuda, vamos protocolar uma reclamação junto à Vigilância Sanitária. Ligue na Prefeitura, vamos. É preciso que alguém tome providências, senão outras pessoas serão mordidas.

Ligamos para o dito PABX da Prefeitura, e eu me deliciei com a música que me enviaram através dos fios. Depois, uma voz cansada foi simpática, forneceu-me o número do telefone da Vigilância.

A atendente da Vigilância foi solícita, explicou direitinho. Minha amiga deveria voltar ao Pronto Socorro, solicitar um laudo minucioso do médico plantonista que a atendera no dia fatídico. Munida do documento e de não sei mais quantas testemunhas, deveria ir ao 1º.DP -Departamento de Polícia e providenciar um B.O. - Boletim de Ocorrência. Munida desses documentos, tudo ficaria fácil. Bastaria que a vítima se dirigisse à Vigilância Sanitária e aguardasse as providências.

Acho que a atendente só se esqueceu de me pedir o laudo do veterinário, informando se o cão estava ou não com hidrofobia.

Relatei detidamente as informações colhidas e esperei que minha amiga fosse externar indignação ou raiva. No entanto, ela me encarou e, filosoficamente, concluiu:

- O jeito é tomar as vacinas e evitar a Praça Nossa Senhora da Conceição... Talvez, ouvir missa noutra igreja...

Eu, com a cara besta de sempre, fiquei ruminando.

- Acho que, de fato, estou ficando ranzinza.

Envie seu texto
e faça parte do Nossas Letras