A prisioneira esquecida

Por: Mauro Ferreira

Ela tinha sido a garota mais bonita do ginásio, cobiçada pela molecada impúbere e cheia de espinhas na cara, de olho em suas curvas exuberantes parecidas com as de Martha Rocha, mas ela não tinha as duas polegadas a mais. Depois, sua simpatia e beleza a tinham levado a ser eleita a miss Suéter no clube mais freqüentado e chique da cidade. Recebeu a faixa em verdadeira apoteose. Então, estudou para professora na faculdade, casou, teve filhos e foram morar num apartamento no imponente prédio que seu pai tinha na praça principal, defronte o coreto e a matriz.

Mas, um dia, os filhos cresceram e foram embora. A beleza também se foi. O marido, sempre envolvido com o trabalho, teve um fulminante enfarto. Os pais já haviam morrido. Ela ficou sozinha, prisioneira por escolha própria no casarão da praça da matriz. De lá, viu crescer o burburinho da cidade que aumentava cada vez mais, novos bairros distantes surgiam com nomes esquisitos que ela nem sabia onde eram. Durante a semana, as pessoas e os carros passavam agitados, barulhentos e enfumaçados, havia uma premência e uma urgência pela vida que não quebrava sua rotina de clausura.

Ao contrário, lá de dentro do casarão, ela via na linha do horizonte os bairros se esparramando, as colinas cada vez mais coalhadas de casas, fábricas, lojas e farmácias, prédios altos querendo tocar os dedos nas nuvens, a agitação e o barulho feérico dos carros cada vez maiores. Às vezes, à noite, escutava as sirenes das ambulâncias em desespero procurando o hospital central que ficava ali perto. Também percebia as luzes dos carros da polícia, que descia o cassetete em bêbados, mendigos e drogados que aumentavam sem parar e arruaceiros que teimavam em fazer da praça um lugar livre.

Muito raramente, a praça era tomada por bandeiras e slogans dos partidos políticos ou por protestos de estudantes e trabalhadores contra o custo de vida e a carestia. Também raramente, passeatas com palavras de ordem, procissões e desfiles cívico-militares com o rufar dos tambores. Chegou a ouvir impropérios e o barulho de chutes em cones de trânsito. Mas isso foi minguando, até que não existissem mais tais atividades. Ouviu ao longe um ou outro show de música eletrônica bate-estacas que ela não conseguia gostar, embora tivesse sido a maior pé-de-valsa do rockabilly nos tempos que freqüentava os bailes do clube, que também tinha fechado.

Cada vez mais, foi se tornando reclusa no envelhecido e desgastado prédio que tinha sido erguido a mando do pai nos tempos das lutas entre paulistas e o resto do país. Parecia que ninguém mais se lembrava dela. Até o dia em que sua memória começou a falhar e esqueceu de pagar as contas. Não é que foi um tal de gente aparecer e ligar para cobrar? Recobrou as lembranças todas, até da roupa que usou no dia que virou miss Suéter.

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