Desaniversários

Por: Maria Luiza Salomão

Na história Alice no País das Maravilhas o absurdo dos acontecimentos é narrado como uma experiência real. Exatamente como em nossos sonhos. Na narrativa dos sonhos o absurdo vívido - voamos, conversamos com pessoas mortas, estas coisas que todo mundo sabe porque sonha.

Conversei, em sonhos, com Guimarães Rosa, Caetano Veloso, Fernando Gabeira, com o Collor antes do impeachment. Dei conselhos ao Collor, a caminho de não sei onde, muita gente dentro de uma perua volkswagen.

O que me impressiona em “Alice” é a sensibilidade de Lewis na construção de várias imagens, cinematográficas. O sorriso do gato sem o gato, aquele bocão vermelho. O coelho correndo, sempre apressado “estou atrasado, estou atrasado”, um atraso para alguma coisa que nem ele, o coelho, parece saber (tanta gente é assim, feito o coelho, e bem acordado!).

A comemoração do desaniversário! Que dia maravilhoso, este, do desaniversário. Pode ser qualquer dia, comemorado de qualquer jeito, convidamos quem a gente quiser para comemorar qualquer coisa.

A verdade é que o dia em que nascemos para o mundo é um dia chato. A gente não sabe que nasceu, primeiro de tudo. E, no entanto, muita gente que vivia antes de a gente nascer, sabe! Uma bagunça geral, muito esforço, dores, luz demais, som demais, fome. Quem comemora (ou não comemora, o que seria uma tragédia) são os pais. Não escolhemos quem vai nos ver de cara amarrotada, cara de joelho, sem traços definidos ainda. Não há graça em comemorar este dia, tão inconscientemente vivido.

Há 364 dias para comemorar desaniversários. Podemos marcar o Dia em que descobrimos as nossas paixões! Memoráveis. A Paixão de ler, de brincar com um determinado amiguinho, de ser escolhida para melhor amiga daquela amiguinha, quando descobrimos a comida que mais gostamos, a bebida, a cor preferida, o cheiro, o céu, o mar, o sol, a lua, as estrelas, a cidade, o país, a pedra que brilha ou não brilha, os insetos, uns amores, a montanha, o livro, a mágica, o rio, a flor, os vagalumes!

Um desaniversário é Dia de Acasos Interessantes (que viram co-incidências, sempre posteriores ao Acaso): quando consigo andar, sozinha, com as próprias pernas, quando caio sem me machucar, quando agradeço aos pés, tão trabalhadores e fortes, ou aos olhos que me norteiam incessantemente, aos ouvidos a registrar mínimos sussurros, que me trazem a Música (oh prazer divinal!). O prazer que o Corpo pode me dar, e sofrimento também, que faz parte do pacote geral, de tronco, braços, pernas, cabeça e pés, maravilhosos pés!

Desabrido riso (a propósito de quase nada) é bom motivo para um desaniversário. Desaniversários são tão livres! E só a Alma sabe o dia, a hora, o minuto do Desaniversário (pode ser secretíssimo).

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