Se eu pudesse voltar à escola

Por: Everton de Paula

Se eu pudesse viver de novo a minha vida, procuraria na escola cursos que nos ensinassem a nos divertir mais, cursos de absurdos e frivolidades. Arranjaria instrutores especializados em tocar tambor, andar de esqui, rodar pião, fazer pipa, pintar a óleo, andar a cavalo em pelo, tocar trombeta, andar na corda bamba, dar saltos mortais, pular de ponta do trampolim, tirar fotografias, saber cortejar e tocar no piano todos os chorinhos de Ernesto Nazareth.

Procuraria tornar-me perito ao menos num jogo que pudesse ser praticado depois dos 40 anos de idade. Dediquei longos anos de minha infância ao futebol, ao basquete e à natação, coisas que agora não me valem de nada. Deveria ter aprendido pingue-pongue, atirar com arco e flecha, tocar xilofone e gaita. Esquece toda Matemática e História que aprendi. Gostaria de ter aprendido a assobiar e a tratar de passarinhos.

Quem dera que algum professor me tivesse ensinado que são muito estreitos os horizontes do trabalho incessante e que eu podia adotar a seguinte filosofia: Amas a vida? Então desperdiça tempo em profusão, pois do desperdício é que é feita a verdadeira vida. Foram muitos os professores que me ensinaram seriedade. Seria bom se outros me tivessem ensinado a ser feliz, a sorrir...

Rubem Alves escreveu: “Os anjos voam porque se consideram levianamente. A solenidade flui naturalmente dos homens: mas o riso é um salto.”

Por isso, se eu tivesse que ser educado de novo, encontraria ou inventaria um curso de abandono. Nele estaria incluído um semestre inteiro de prática de laboratório sobre a arte de cair fora das coisas: armadilhas de falsos amigos, por exemplo. Aprenderia a fazer amizades e a rompê-las também, quando necessário. E aprenderia a viajar com pouca ou nenhuma bagagem e a largar as coisas de que não gostasse realmente.

Aprenderia a evitar três palavras: se ao menos... Isto eliminaria meus sentimentos de culpa! Aprenderia a usar três palavras: da próxima vez... Isto iluminaria de maneira formidável o cenário de meu futuro!

Largar as coisas detestáveis: como empregos onde não se é reconhecido, por exemplo. Dão-nos uma quantidade de conselhos sobre a maneira de consegui-los, mas é preciso ser um gênio para saber como e quando largá-los.

Outras artes que eu gostaria de ter aprendido são: a de viver barato, a de evitar grupos corais, a de não ser uma pessoa dinâmica, nem encontrar outras que o sejam, a de dizer com mais frequência “Obrigado” e “Gosto de você”

Entre as principais dificuldades do mundo de hoje, não estará o fato de existirem tantas pessoas que tentam ser úteis antes de saberem elas mesmas como aproveitar a vida? Deveríamos, por exemplo, ter a obrigação de tomar sopa sem fazer barulho, de parar de beber logo que começamos a constranger as outras pessoas, ou a prejudicar os nervos dos próximos.

Teria procurado um curso sobre a arte de ouvir e a arte de ser gentil, de cultivar boas maneiras. Acima de tudo, temos absoluta obrigação para com os outros de manter uma atitude agradável.

Não foi à toa que o filósofo Bacon englobou os objetivos da educação: “Os estudos servem para deleite, ornamento e competência. Sua principal utilidade como deleite está no recolhimento e na solidão; como ornamento, está na palavra; e como competência, está no critério para julgar e orientar.”

Ele põe o deleite em primeiro lugar.

Não quero, com este texto, marcar um veemente apelo em favor de mais liberdade no currículo escolar, mas lembrar que, pelo menos, até os oito anos, só vale o elogio e o deleite. É científico, é humano, é cordial, é sensato, é inteligente, é divino!

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