As tênues linhas entre razão e loucura

Por: Sônia Machiavelli

160337

Considerado até por seus pares “o maior diretor vivo dos EUA”, Martin Scorsese exibe uma trajetória de vida que em seus primórdios teria desanimado os mais valentes. Mesmo se consideramos a história mais recente, a marca é a da irregularidade, com filmes que inovam o gênero, como Táxi Driver; não empolgam nem crítica nem público, a exemplo de New York, New York; recebem muitas indicações ao Oscar, e está aí A invenção de Cabret, concorrendo em onze categorias; ou trazem em seu bojo a polêmica, de que é exemplo Ilha do Medo. A respeito deste último, manifesta-se ele aborrecido: “não aguento mais nenhuma crítica sobre o filme”.

Ilha do Medo é inteligente, sofisticado, com muitas camadas de sentidos, sombrio e instigante, exigente de atenção a detalhes. Enfim, é intenso. Mesmo para o espectador atento e familiarizado com a obra do diretor, existe o risco da indecisão sobre duas leituras, uma onde prevalece a realidade; outra, onde domina a imaginação. Durante todo o tempo esses planos estão lindados e nisso reside a singularidade da obra. Contar uma história onde a loucura também é personagem implica em lidar com níveis de razão em dosagens variáveis.

O filme começa indiciado por neblina, elemento que marca também o início de Taxi Driver. Uma balsa se desloca em meio à névoa, em dia muito frio de um mês outonal de 1954. Ela se aproxima da ilha de aspecto sinistro, conhecida pelo nome Shutter. Ali está incrustado um presídio psiquiátrico, destino dos dois passageiros que vão desembarcar no cais, “único caminho para entrar e sair”, frase recorrente. O agente da polícia federal Teddy Daniels (Leonardo Di Caprio) e seu assistente Chuck Aule (Mark Ruffalo) investigam o desaparecimento de paciente ali internada. Teddy combateu na Segunda Guerra e assistiu à libertação dos prisioneiros do campo de concentração de Dachau, na Alemanha. Vive assombrado pela morte trágica da esposa, Dolores (Michelle Williams).

São lançadas então algumas pistas que vão sinalizar diferentes caminhos ao telespectador. 1. A história remete ao tempo do pós-guerra e o hospital pode ser um campo de concentração. 2. Conta apenas um caso de polícia onde o detetive é vítima de uma conspiração que não se desvela inteiramente. 3. Constrói um enredo delirante, misturando as duas narrativas anteriores. 4. Faz um estudo psicológico da culpa, do remorso, do nível (in) suportável da dor, das manifestações do subconsciente, da vida psíquica de um homem perturbado. Há outros subtextos e parece que o propósito do diretor foi mesmo confundir o espectador, assim como foi o objetivo de Dennis Lehane intrigar o leitor na maior parte de O paciente 67, livro no qual Scorsese se inspirou.

A direção consegue infundir no espectador uma sensação de aprisionamento pelo olhar que acompanha os policiais ilhados, literalmente. Sem condições de deixar Shutter, Teddy, especialmente, enfrenta uma jornada de horror que tem início com uma tempestade e é pontuada por perigos reais e imaginários. A ambivalência permeia todo o filme, de maneira que o público não consegue definir o que acontece de fato, do que é paranoia, lembrança, embuste, projeção, o que alça o nível da alucinação, o que pode ser mesmo uma conspiração. A grandeza do filme como obra de arte está nessa capacidade do diretor de apenas sugerir, deixando o esclarecimento para os minutos finais. Decorrência de tudo isso, por ocasião de seu lançamento, pipocaram fóruns de discussão na Internet onde os fãs tentavam analisar o filme, que, para responder a este fim, pede uma revisita. Existem detalhes que só são percebidos da segunda vez que os vemos. Seja qual for a chave de leitura escolhida pelo espectador, o final surpreendente leva a pensar essencialmente no mais inescapável dos sentimentos humanos, a dor.

A linda fotografia de Robert Richardson, conferindo tons sombrios e claustrofóbicos; a trilha sonora que reúne composições de Penderecki e John Cage; o elenco de ilustres onde Di Caprio tem atuação impecável como homem muito atormentado, tudo faz de Ilha do Medo um filme que se destaca como clássico do seu gênero, o drama psicológico com suspense. É claro que se mostra contra-indicado para os que elegem seus preferidos os filmes da Sessão da Tarde.

PRECOCE E OUSADO

Martin Scorsese

Os mais recentes e confiáveis dados biográficos do cineasta estão no livro Conversas com Scorsese, do documentarista e crítico Richard Schickel. Nele ficamos sabendo que Scorsese viveu uma infância difícil, dividindo com sete pessoas de sua família ítalo-americana uma casa de três cômodos na periferia de Nova York. Com frequentes ataques de asma, moléstia que o incomodou a vida inteira, refugiava-se nos desenhos desde muito pequeno. O gosto pelo cinema se manifestou cedo. Levado pela mãe, assistiu a Hamlet, na primeira versão cinematográfica com Laurence Olivier, aos 6 anos.

Nascido em Nova York em 1942, quis ser padre em algum momento entre os oito e dez anos e a sua devoção católica aparece de forma sutil em alguns de seus trabalhos. Mais tarde foi cursar cinema na Universidade de Nova York. Ali começaram seus contatos com nomes que se tornariam expressivos nas telas. Ao concluir o curso, foi trabalhar em agência de publicidade e, depois, nos estúdios de cinema, onde fez pequenos filmes comerciais. O primeiro deles foi Quem bate à minha porta? Em 1974 dirigiu o que lhe daria visibilidade: Alice não mora mais aqui. Depois viriam filmes excelentes, como Touro Indomável; medianos, como Depois de horas; fracos como A cor do dinheiro; polêmicos, como A última tentação de Cristo; referenciados pela crítica como Os bons companheiros.

Cabo do medo, A época da inocência, Gangues de Nova York, O aviador e Os Infiltrados precedem Ilha do Medo, de 2010. A invenção de Cabret, do ano passado, recebeu onze indicações ao Oscar.

Serviço
Título: Ilha do Medo
Diretor: Martin Scorsese
Elenco: Leonardo Di Caprio, Mark Ruffalo, Ben Kingsley, Max von Sydow, Emily Mortimer,
Roteiro: Laeta Kalogridis, baseado em livro de Dennis Lehane, O paciente 67
Duração: 148 minutos
Gênero: Drama
DVD: Paramount, simples, sem extras; nas locadoras.
Onde: nas locadoras

Envie seu texto
e faça parte do Nossas Letras