O revide

Por: Caio Porfirio

160338

Falava, falava e falava, gesticulando muito. E ele, cabeça baixa,ouvia e ouvia, balançando-a em negativas :

- Não acredito. Não acredito.

A voz colérica continuava entre chuvas de perdigotos, entrava em detalhes minuciosos. E ele contraía o cenho, cabeça baixa, sem parar com as negativas:

- Não acredito. Mas que cafajeste. Quem diria. Juro que não acredito.

A voz colérica sarcástica, acompanhando os passos que iam e vinham, a mão fechada esmurrando a palma da outra. Falava, falava, a rouquidão chegava no atropelo delas. E a cabeça baixa ouvia e ouvia. Parou com as negativas, respirou, chegou à conclusão:

- Vamos dar uma lição definitiva no miserável.

Foram. Subiram e desceram ruas. A cabeça retornou às negativas:

- Deixe comigo. Safado. Não acredito.

A cabeça girou sobre o ombro, olhos surpresos:

- Lá está ele. Vai atravessar a rua.

Aproximaram-se do homem bem vestido na ponta da calçada, entre o grupo de transeuntes. A cabeça firmou-se e a perna, rápida, levantou o pé e jogou-o na frente do ônibus, que não conseguiu parar e buzinou aflitivamente.

Perderam-se na multidão e as exclamações ganharam o céu:

- Oh!!!

A cabeça, resoluta, olhava em frente:

- Agora disfarça. Vá para lá e eu vou para cá.

Balançou-a numa última negativa:

- Depois saberemos do estrago.

E eclipsaram-se em sentidos opostos.

Envie seu texto
e faça parte do Nossas Letras