Jabuticabeiras

Por: Marina Garcia Garcia

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- Olha só que legal, uma jabuticabeira!

- Acho que não é não.

-Claro que é, vamos lá ver.

E era. O muro havia sido derrubado e casa de dona Alice desaparecera. No terreno amplo, só resistira ela, a jabuticabeira. As ralas frutinhas insistiam em adocicar pretejadas de maduras. Que gosto bom! Sabor de infância.

A correria do cotidiano nos faz passar pelas ruas sem nos darmos contas das mudanças. E são tantas... As casas simples de bairro operário cedem lugar a imponentes sobrados.Certamente, você que já viveu alguns anos, como eu, deve se lembrar dos imensos quintais com muitas árvores frutíferas ou não, um cantinho para canteiro de cebolinha, uma touceira de erva cidreira, e na frente da casa, uma promiscuidade de flores e perfumes.

—Menina desce daiiiiiiií!! Vem me ajudar aqui.

A gente descia, mas deixava lá nas pontinhas da árvore, muitas brincadeiras que retomaríamos logo, logo.

Como diria Carlos Drummond, “a vida ia devagar...”, contrariando nossa vontade de ser gente grande e poder ir ao cinema proibido para menores de 14 anos, vestir-se como moça, cortar o cabelo, etc e tal...

E na rapidez do velocímetro, percebo que não existe mais a casa dona Aparecia, do seu Martins, dona Antônia. E assim, demolindo histórias, numa desolação sem fim, os lotes, como querem os empresários do ramo imobiliário, se revelam nus , alguns com uma jabuticabeira solitária ao fundo, por enquanto...

Uma nova construção começou. A jabuticabeira de dona Alice também desapareceu.

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