O delinquente

Por: Mauro Ferreira

Mauricio era de uma família humilde que tinha se mudado da roça de café de uma pequena cidade das Minas Gerais para que os filhos do casal de retireiros pudessem ao menos aprender a ler e escrever na cidade grande. Foram morar na perifa, numa casa alugada daqueles conjuntos habitacionais que o governo fazia, sala-cozinha-dois quartos-banheiro, era um aperto só. Foi apenas com um destes programas novos do governo do Lula que ele conseguiu entrar numa faculdade para virar professor, seu grande desejo desde menino.

Durante o curso noturno para virar professor de educação artística, ele se virava para pagar as contas com todo tipo de trampo. Tinha sido office-boy de uma fábrica de sapatos, desenhista de saltos numa fábrica de solados, ajudante de um escritório de engenharia. Com as pequenas economias que fez, comprou uma moto de cinqüenta cilindradas, o suficiente para subir as colinas da cidade e chegar a tempo às aulas depois de um dia duro de trabalho.

Aplicado, fazia todos os trabalhos que os professores pediam, freqüentava a biblioteca e até as exposições de arte que um grupo de malucos fazia no jardim Consolata, perto da faculdade. Alguns professores incentivavam sua dedicação ao estudo, oferecendo estágio nas escolas públicas, já que queria ser professor e não artista. Depois de vários anos, chegou a hora de fazer o trabalho de conclusão de curso, o TCC. Junto com orientador, escolheu como tema os bonecos gigantes de Olinda, que aparecem nos carnavais pelas colinas sagradas da histórica cidade pernambucana.

No dia da apresentação do TCC, pediu licença ao chefe para sair mais cedo, mas o acúmulo de trabalho não permitiu. Em cima da hora, montou em sua moto, colocou um boneco-modelo na garupa e saiu em disparada para a faculdade. Distraído, nem lembrou que o caminho de todos os dias passava diante do quartel da polícia militar. Deparou-se com uma imensa blitz. Luzes piscando, soldados com metralhadoras, ele nem pensou em nada, estava com os documentos em dia.

No lusco-fusco do entardecer de um dia de horário de verão, no entanto, o comandante da blitz viu de longe apenas uma moto com um sujeito grande na garupa, sem capacete e todo desconjuntado. O militar deu ordem de abordagem imediata. Quando se viu, Maurício estava cercado por dezenas de milicos com metrancas apontadas em sua direção, dizendo para descer com as mãos na nuca e ele sem poder largar o boneco, indispensável para a apresentação do TCC. Amarrado nele, para onde se virava, o boneco virava junto e o chefe do destacamento foi ficando nervoso com o sujeito que se escondia atrás do outro. Deu ordem de prisão.

Foi quando se viram com o mais “Ledo Ivo” engano. Era apenas um boneco desconjuntado. Restou o tempo suficiente para chegar esbaforido à sala de apresentações do TCC, onde uma trinca de professores da banca o aguardava com cara de poucos amigos e de censura pelo atraso. A desculpa não colou, por tão estapafúrdia. Mas era tudo verdade. Ou quase.

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