Demanda

Por: Eny Miranda

Nos caminhos deste novo ano - ora lavados em águas, ora em águas submersos; ora banhados por luminoso azul, ora por azuis luminosos calcinados - caminho. Em mim, líquidas lembranças de cores e luzes e penumbras; memórias de esperas, chegadas e adeuses - ecos de amadas vozes, em ires e vires; em pousos e partidas; em revoadas: aves de arribação - fluem e refluem, adensam-se e se precipitam, regam o que é árido e se vão, escoam, evaporam, para novamente se adensarem e se precipitarem sobre o terreno crestado, em ciclo infindável, ciranda de bens dos sentidos, bastando, para evocá-la, um breve fechar de olhos. O que é normal, como lembra o poeta, no jogo da evocação: “destruídas lá fora, as coisas se vão recompondo cá dentro”.

Necessito agora de outros líquidos, nascidos de outras (próximas, alcançáveis) fontes - frutos da conjunção dessas muitas águas e desses muitos azuis - que fertilizem as sementes tecelãs da vida, nos canteiros da reflexão e do recolhimento. Necessito de líquidos que reguem de cores e luzes e - por que não? - de penumbra olhos e coração e os preparem para o plantio. Careço de um bálsamo, um elixir alquímico, que dissolva e que renove; que fecunde a alma com o verde, o úmido, o viçoso, para que este novo ano se faça realmente novo. Desejo ver o amorável aqui, agora, bastando para isso abrir - não fechar - os olhos. Estou em busca do tempo presente, da vida presente.

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