Um programa de despreparo físico

Por: Everton de Paula

Este culto da cultura física está fazendo um número de vítimas cada vez maior. Todos querem ficar em forma para caber nas roupas. Com isto, ouve-se o ranger de juntas forçadas, o estalar de joelhos flexionando, pontuado pelo baque surdo de mais uma vítima que se desprende das paralelas em que se exercitava. Grupos de pessoas de meia-idade, cultoras da saúde, reúnem-se ao raiar do dia, de roupa-esporte e tênis e põem-se a correr acelerado pelo parque ou avenidas.

O pior é que os maníacos do preparo físico não deixam o resto de nós em paz. Não ande de carro, insistem eles, vá a pé para o trabalho todos os dias. Esqueça o elevador, suba as escadas. Passe a sua hora de almoço exercitando-se fisicamente. À noite, ao chegar a casa, faça você mesmo os serviços domésticos. Cave o jardim. Apare a grama. Não coma senão alimentos dietéticos, faça ioga e assim você terá uma vida mais longa. Pelo menos lhe parecerá mais longa.

Os fanáticos possuem os fatos e também as estatísticas para prová-los. Desfiam uma série de números relativos às probabilidades de vida das pessoas que não se mantêm em forma, ou surgem, de repente, com uma tabela que demonstra a relação entre a falta de exercício e a deficiência hormonal, que faz com que os joelhos se dobrem para trás. Um programa de preparo físico não só aumentará a sua vitalidade, argumentam eles, mas lhe evitará a gordura excessiva e seus inconvenientes. Experimente-o durante um mês, e seus amigos não mais o conhecerão.

Eu não me aborreceria tanto se os fanáticos não fossem tão presunçosos. Não há ninguém mais arrogante do que o maníaco que, num coquetel, fica virtuosamente sorvendo o seu suco de acerola, enquanto assegura aos outros convidados que para ele não é nada extraordinário começar o dia com uma corrida de cinco quilômetros. Ele está sempre à procura de uma oportunidade para demonstrar as suas façanhas. Conheci um, há algum tempo, que começou por me esmigalhar os dedos com sua mão de ferro, depois deu um golpe, fazendo-me perder o equilíbrio e cair sobre o sofá. “Não admira que você esteja ofegante”, disse ele, enquanto eu me levantava, “Veja em que estado você se encontra.”

Bem, confesso que o meu estado físico deixa algo a desejar. Confesso que exercitei, ao longo de minha vida, muito mais o cérebro que o corpo. Confesso, enfim, que sinto muito mais prazer em editar textos, proferir palestras, ministrar cursos, escrever crônicas, estudar filosofia, entender política e outros que tais que tratam da cultura do espírito do que, de calção-camiseta-tênis, correr tantos quilômetros em tantos minutos, malhar numa academia em exercícios repetitivos sob o som altíssimo de um “tum-tum” a que chamam de música, transpirar e sentir as tais dores físicas da compensação.

Tenho amigos e parentes adeptos da fisicultura. Eles procuram me convencer que eu, aos sessenta anos, deveria me preocupar, sim, com o físico para a longevidade e a sensação de bem-estar. Mas quem disse que está preocupado com longevidade? Viver muito é vantagem? Daria uma bela discussão. Mas, para ser gentil e educado, concordei em seguir conselhos, ainda que fosse apenas para poder amarrar o cadarço dos sapatos estando sentado.

O meu primeiro problema era resolver qual programa seguir. Depois de ouvir atentamente o conselho deles, somei o tempo que eu teria de gastar todos os dias para me manter em forma. Incluindo banho de vapor ou sauna, massagens, corridas, musculação, alongamentos, aquecimentos, desaquecimentos, levantamento de pesos e o belzebu dos infernos, verifiquei que o total se elevava a 23h e 45min, deixando-me aproximadamente 15 minutos para ler os meus e-mails, dizer olá à família e tirar uma pestana antes de recomeçar o treino do dia seguinte.

De modo que, em legítima defesa, inventei o meu plano pessoal de saúde que chamo “Um Programa de Despreparo Físico”. Em lugar dos exercícios de flexão, o meu plano, aqui delineado, prevê um exercício de sentar. Os únicos requisitos são uma poltrona confortável, um descanso de pés e um par de chinelos.

Primeira etapa: fique de pé, aprumado, com as costas voltadas para a poltrona. Coloque cada mão num braço da poltrona atrás de você, com a palma voltada para baixo. Inspire profundamente, flexione os joelhos e abaixe o corpo, até que seu traseiro esteja firmemente plantado na almofada do assento. Expire.

Segunda etapa: estique ambas as pernas para a frente e levante-as até ao banquinho. Não empregue as mãos para levantar os pés, a menos que seja necessário.

Terceira etapa: encoste-se para trás, até que sua cabeça repouse contra o espaldar da poltrona; feche os olhos e deixe cair o maxilar inferior, até que sua boca esteja flacidamente aberta. Inspire e expire suavemente.

Há certas variações destes exercícios de sentar, destinadas a fortalecer outras partes do corpo. Por exemplo: fazer sinal para que a mulher vá buscar os chinelos fortalecerá o seu dedo indicador. Segurar o jornal aberto diante de você desenvolverá os seus braços. Inclinar um copo de vinho para os seus lábios, de vez em quando, robustecerá os pulmões.

Inverta as instruções toda vez que você se levantar, por exemplo, para atender ao telefone. Se achar que já treinou o suficientemente nesse dia, deixe o telefone tocar. Talvez fosse apenas mais um dos fanáticos da saúde querendo convencer você a correr de Franca a Batatais pela estrada velha... Debaixo de chuva!

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