Carnaval e Cinzas

Por: Chiachiri Filho

A AEC funcionava num prédio situado à Rua General Teles, ao lado do Correio. Posteriormente, ele serviu de sede à Sociedade Síria Beneficente. Ali se realizavam os bailes de Carnaval. Logo na entrada, havia um grande retrato do diabo, vestido de vermelho e devidamesnte ornamentado com seu cavanhaque, olhos arregalados e grandes chifres. Na década de 50, minha mãe levava-me às matinês e eu sempre me assustava com aquela figura do capeta. Além de assustado, eu não compreendia porque minha mãe, católica praticante, conduzia-me a uma festa em que Satanás era a figura central. Apesar de tudo, eu gostava da festa. Gostava das músicas, das danças, dos confetes, serpentinas e lança-perfumes. Entrava na brincadeira, pulava, cantava e divertia-me a valer. Pensava comigo mesmo:

— Será que no reino do demônio as coisas são assim tão alegres e divertidas?

Confesso que até hoje tenho uma certa dúvida, pois tudo que é bom engorda ou é pecado. Não é mesmo?

Depois dos três dias de folia, vinha um tempo de expiação e penitência. Começava na Quarta-feira de Cinzas, dia em que os foliões e folionas, com um ar sério e contrito, ajoelhavam-se nas Igrejas para receber em suas testas o sinal das cinzas. Outras e outros mais fogosos, devidamente acompanhados por seus pais, faziam fila na Delegacia de Polícia. Dizia-se em voz muito baixa que eles estavam casando na “igrejinha verde.”

Após três dias de desbragada folia, seguiam-se mais de quarenta de ressaca, remorso, contrição e penitência. A Quaresma era a época das almas penadas, das mulas sem cabeça, dos lobisomens, dos sacis, das assombrações. Histórias de fantasmas e de suas aparições eram temas preferidos nas conversas e amedrontavam ainda mais as crianças. Na Quaresma não havia bailes nem festas. Havia uma espécie de luto, de silêncio e calmaria. Faziam-se jejuns e abstinências. Às sextas-feiras, só se comia carne de peixe. A ida aos templos religiosos era uma obrigação constante. Somente no Sábado da Aleluia o povo voltaria a cantar, dançar, enfim, a se divertir.

O Carnaval não é mais aquele e a Quaresma também não. Mas, a vida aqui na Terra continua a mesma, isto é, numa eterna oscilação entre a paz de Deus e as tentações do Diabo.

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