Mordaças no chão

Por: Luiz Cruz de Oliveira

No fundo, bem lá no fundo do porão, resta um calabouço.

Lá no fundo, bem lá no fundo do calabouço, há um poeta.

Correntes, argolas e algemas aprisionam-lhe as pernas e os braços, fazendo-o Prometeu, prolongamento da muralha.

A umidade escala as paredes da cela, molha suas costas, até a ferragem da porta.

O poeta está amordaçado.

Nenhum ruído de cores, nenhuma musicalidade transpassam as muralhas de pedra.

Às vezes, um fiozinho de aragem inventa gretas, viaja por corredores, sussurra-lhe segredos aos ouvidos.

É o que basta.

O poeta que mora no calabouço, bem lá no fundo do meu peito, arrebenta mordaças e solta gritos roucos.

Julga estar entoando hinos de louvor à vida.

Envie seu texto
e faça parte do Nossas Letras