Homônimos

Por: Mauro Ferreira

A existência de homônimos pode gerar situações constrangedoras para muita gente que tem nomes simples, que às vezes os levam até a alterá-lo, como fez o importante arquiteto José Luiz Silva, que virou Leporace Silva. Meu nome, por exemplo, que poderia ter o Volpe da minha mãe, sempre me fez perder tempo com explicações, especialmente na época anterior à completa informatização das contas bancárias e a exigência de CPF para compras e contratos.

Vira e mexe, ligavam-me da agência bancária onde mantinha conta dizendo que havia cheques devolvidos, protestos em meu nome ou coisas do gênero. Eu tinha que ir lá pessoalmente mostrar que o mau pagador devia ser um homônimo, levando uma penca de documentos. Confusão das melhores foi quando inauguraram o conjunto habitacional do Jardim Palma, nos tempos do segundo governo do Maurício Sandoval. Naquela época, eu escrevia artigos bastante críticos ao seu governo e membros de sua equipe não queriam me ver nem pintado de dourado. Quando a obra ficou pronta, veio uma ministra do Collor para a inauguração. No palanque apinhado, o locutor fez longo suspense para anunciar a primeira chave do conjunto a ser entregue ao felizardo que iria ter sua casa própria. Para ninguém menos que... Mauro Ferreira. Houve quem achasse engraçada a coincidência (como eu) e quem achou ruim com o homônimo.

Mas a mais engraçada foi a que aconteceu com o Antônio Carlos da Silva, o famoso e mítico Cacheado da farmácia. Nos anos 70, ele prestou o exame vestibular para entrar no curso de Direito do Brejão. No dia da publicação do resultado, que era afixado no saguão do prédio, ele foi até lá saber se havia sido admitido ao mundo formalista dos causídicos que, convenhamos, não tem nada a ver com sua personalidade.

Nos jardins da faculdade, um sujeito era “atacado” por veteranos que lhe raspavam o cabelo, jogavam tinta e o escambau. Cacheado entrou direto na escola e viu seu nome entre os aprovados, conferiu o boleto com o número da inscrição e saiu sorrateiramente para evitar os veteranos. Ouviu alguém gritar seu nome e se virou. Suspirou aliviado quando viu que não era para ele, era para o sujeito que estava ficando careca. Percebeu que era um homônimo.

Já o sujeito só percebeu bem mais tarde, todo esculhambado e com uma reluzente careca na cabeça, que seu número de inscrição não conferia com o do aprovado. Tarde demais.

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