Somos todos Iniciantes?

Por: Maria Luiza Salomão

O título do filme em inglês, Beginners (iniciantes), 2010, escrito em letra cursiva, tosca (letra cursiva está fora de moda, que coisa!), é índice que não foi considerado pelo tradutor que tascou a sua interpretação: “Toda forma de amor”, lançamento em DVD. Christopher Plummer foi indicado ao Oscar de coadjuvante pela sua atuação, junto a Mélanie Laurent, Ewan Mc Gregor e um cachorro-personagem, Arthur, significativo.

Tema complexo, história inspirada na vida do diretor do filme, Mike Mills. É bem possível que o diretor tenha sofrido experiência transformadora com a encenação de sua história, e vice-versa para os atores.

Todos os personagens são iniciantes no relacionamento amoroso, até Arthur. Oliver (Mc Gregor) inicia um namoro com Anna (M. Laurent) em uma festa à fantasia, ela vestida de homem e, ele, de Dr. Freud, brinca de analisar os convidados, escondendo (detrás do cachimbo e da barba) sua solidão crônica e tristeza pelo luto do pai, recentemente falecido (C. Plummer). Anna tem problemas com a figura masculina (seu pai é melancólico, tem ideias suicidas e ela é sua ouvinte compulsória, pesado encargo). Ela tenta fugir disso (como Oliver?), sendo atriz profissional (eclipsa-se de si mesma?), não se fixa em nada e em ninguém. Os dois tentam manter, primeira vez, relacionamento adulto. Oliver, designer gráfico, retrata em imagens o que não consegue exprimir em gestos e palavras, fragmentos de sua história, mas sem costura afetiva.

O pai de Oliver declara-se gay, após a morte da mãe, depois de 44 anos de casamento. Oliver, criança, presenciou o casamento falido dos pais, vivendo bem próximo da mãe. Apoia o pai, com 75 anos, sem qualquer tipo de preconceito ou julgamento. Principiantes os três (os quatro, com o cachorro) vão se revelando a si mesmos e aos outros. Pai-filho reconfiguram a relação, o pai com o namorado Andy e novos amigos, feliz e espontaneo como nunca fora dantes (como marido-da-mãe). Oliver, após a morte do pai, herda Arthur e os dois constroem uma linguagem.

Ternura e delicadeza nos fios tênues e profundos das descobertas. Pais podem ser correntes pesadas a impedir novos aprendizados aos filhos. Por outro lado, gerações novas são, por princípio e direito, a oportunidade de renovar ideias e comportamentos. Velhas gerações, por direito e princípio, rejuvenescem sendo oportunamente aprendizes, principiantes, por que não? O filme traz um sutil convite para encarar com honestidade e coragem as circunstâncias (casuais ou provocadas), as facetadas formas com que a Vida se transveste.

(quem não está iniciando hoje algo, não iniciou ontem um novo vínculo a alguém ou a alguma coisa, ou, quiçá, amanhã não estará a principiar qualquer coisa? Afinal, acabou o Carnaval, o ano brasileiro começou!)

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