‘Hugo Cabret’ é homenagem ao cinema

Por: Sônia Machiavelli

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Martim Scorsese surpreende com A invenção de Hugo Cabret, que pode levar neste domingo onze prêmios na festa do Oscar. O filme foi motivado por sua mulher, que o desafiou a realizar algo que pudesse ser assistido pela filha de dez anos. Valendo-se de vários gêneros, ele construiu uma narrativa que mescla suspense, aventura, mistério, romance, humor. O resultado é obra de arte que enternece pessoas de todas as idades.

O cineasta, considerado um dos cinco maiores de sua geração, gosta de transpor literatura para tela e grande parte de sua filmografia ilustra isso. A invenção de Hugo Cabret é mais um título para engrossar a lista, pois deriva do livro homônimo de Brian Selznick (1966), escritor e ilustrador renomado de obras para o público infantil. Seu estilo inovador, com desenhos tipo storyboard, já conquistou milhares de fãs.

A história do menino órfão (Hugo Cabret/ Asa Butterfield) que herda um robô de seu pai ( Jude Law), e busca encontrar uma peça e uma chave que o façam funcionar, é o eixo em torno do qual o enredo se desenrola e se desdobra em outro. No que se refere ao heroi, há poucos encontros gentis, como o que ocorre com a menina Isabelle (Chloë Grace Moretz), e muitos turbulentos, onde sua liberdade é colocada à prova, como o que acontece com o Inspetor da Estação (Sacha Baron Coen). Mas há também aqueles onde a amargura de um ( George Méliès/ Ben Kingsley) e a doçura de outro (Monsieur Labisse/ Christopher Lee) podem levar por vias indiretas à decifração do enigma que o desafia. À medida que a busca de Cabret evolui em descobertas, vai-se desvelando outra história que é, na verdade, a que o diretor mais quer contar: a dos primórdios do cinema, a dos Irmãos Lumière, a dos entusiastas de primeira hora, a de George Méliès ( 1861-1938), avô dos efeitos especiais. E a do investimento emocional e material que às vezes parece redundar em nada, até que algo aconteça para mostrar que não é bem assim. Tudo na vida tem um sentido e muitas coisas pedem um tempo para serem entendidas em toda sua inteireza e complexidade.

Entre diálogos inteligentes e sutis, há um que sai conosco do cinema, nos habitando porque tem alcance universal. No momento em que o nó da intriga parece mais cego, o garoto diz à menina, do alto do prédio da estação de trem: “Tudo nesse mundo serve a um propósito: o relógio marca as horas, o trem leva as pessoas de um lado a outro...” E a menina faz a pergunta que normalmente o espectador, nesta altura, se faz: “ E o meu propósito no mundo, qual será?” Mais tarde ela descobrirá, o que lhe garantirá fechar o filme de maneira encantadora. Poucas vezes a relação entre cinema e literatura recebeu olhar tão delicado.

O propósito da vida do protagonista é o mesmo da vida vivida por seu pai, ele conclui: consertar coisas. E o propósito do cinema, sob a ótica do diretor, é fomentar o sonho, como diz de forma explícita seu personagem. Como um filho de Georges Méliès, Scorsese refaz sua saga, celebra sua existência, reconhece seu legado e realiza um filme que alça o público acima do cotidiano pesado e exigente pautado pela realidade.

O enredo flui sob alguns signos evidentes de tempo, dois deles, os relógios e os trens. Eles possibilitam imagens belas, expressivas e simbólicas, além de recorrentes, retomadas de forma singular. Quem nunca assistiu a uma cena em que alguém fica pendurado nos ponteiros de um grande relógio de igreja ou estação? Quem nunca ficou de olhos arregalados diante do trem prestes a colher um humano parado sobre os trilhos e que alguma razão misteriosa impede de fugir? Pois essas cenas estão no filme de que falamos. No caso do trem, o diretor investe em dose dupla ao resgatar a primeira cena feita pelos Lumière em 1895. São 50 segundos que apavoraram os espectadores da época, temerosos de que a máquina saísse da tela e os atropelasse. É com recursos assim criativos que o diretor reverencia o cinema e pioneiros como George Méliès, que teve fina percepção para entender que o cinematógrafo não era apenas invenção pueril, mas ferramenta que criaria um novo tipo de arte. Desde que atrás das câmeras e no trabalho minucioso dos estúdios estivesse aquele a quem a imaginação pudesse representar antídoto ao tédio.

A invenção de Hugo Cabret é um sonho que alimenta a alma bem além do final da sessão. Leve as crianças da família para ver. E leve também a criança que mora dentro de você para assistir. Todas sairão encantadas.


EFEITO ESPECULAR

Martin Scorsese

Não são poucos os que têm escrito e comentado que há muito de Scorsese no perfil do pequeno Hugo. Não pela pobreza, pois Scorsese vem de uma família de classe média alta, mas sim pela solidão. Como Cabret, refugiado em lugares isolados onde busca na imaginação formas de sobreviver e lutar, também Scorsese recorreu à imaginação, quando, vitimado por crises de asma, precisou manter-se afastado do contado com outras crianças. Os dois veem a vida passar pela janela, enquanto anseiam dela participar; e é na infância de ambos que o cinema surge como algo encantatório, que apaixona e leva à criação de supra-realidades capazes de alimentar a alma. Terá sido por este poder criativo que o livro de Selznick cativou Scorsese. Mas talvez ainda mais do que a personalidade do menino, condenado a se manter clandestino para não ser destinado ao orfanato, terá sido a necessidade de resgatar a história do cinema e reconhecer os nomes dos que o impulsionaram, o motivo maior que levou o diretor a encarar o grande trabalho que redundou no belo filme. Entre os cineastas, Scorsese tem se dedicado à tarefa custosa que é a de buscar, restaurar, preservar e difundir filmes antigos, condenados ao esquecimento, ao desaparecimento e, pior que tudo, à ausência de um lugar na história. Reconhecer, no caso, é validar.


Serviço
Título: A invenção de Hugo Cabret
Diretor: Martin Scorsese
Duração: 126 minutos
Onde: Cine Franca 1
Sessões: segunda a sexta: 16h20, 19h00, 21h40; sábados, domingos e feriados: 13h45, 16h20, 19h00, 21h40.

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