Blecaute

Por: Vanessa Maranha

Chovia como se o céu tivesse resolvido se despejar inteiro ali. Finas lâminas lançadas do alto. A gargalhada de Lúcia rodopiou em cascata de agudos a sala segundos antes de um relâmpago bipartir o espaço em clarão. Depois, a escuridão que abraçou tudo.

Passos indecisos e apalpadelas no ar em busca de velas, isqueiros e fósforos. Minutos que foram horas, que então os emendaram em expatriados mergulhados num silêncio viscoso, ninguém mais dono de si, naquela sala. Um e outro pensavam que deviam transpor tal abismo, mas, as vozes não saíam, nenhuma palavra se perfazia no ar. Jorge então abraçou Viviane, que se perdeu na força daqueles braços. João farejou o ar e, à proximidade de hálito conhecido, nele mergulhou a aflição.

Letícia tateava as paredes em busca de João porque sabia que. Letícia chorou agudamente um choro de anos, despegada de João; um pranto que ninguém ouviu. Depois riu, às cólicas, à raiva. Apanhou a mão cheia de dedos flácidos de Rosália, dessas mãos hesitantes, o corpo levemente convulsionado dos risinhos que à sua revelia forçavam passagem.

Rosália sonhou acordada. A súbita novidade lhe dando a sensação, já quase esquecida, de milhares de formiguinhas em passeio por seu estômago. Soltou a mão de Letícia porque ali não precisava de mão alguma. Naquele tempo líquido não era a dona daquela casa, nem precisava se erguer nos regramentos, nenhum olho à espreita. Volteava, em pensamentos, segura pelo anonimato, aos delitos mais hediondos encobertos pelo negrume sólido, o limite pouco preciso entre o que então passaria de transgressão a crime. Porque tinha essa característica de lhe sobrevir impulso de corrupção. Estivesse em território alheio teria ímpetos de iniqüidade. Um grande roubo, talvez.

Uma salamandra gelada atravessou como um risco diagonal o chão para se aconchegar numa lata com restos de sardinha abandonada na pia da cozinha, mas ninguém viu. O gato, rabo em pé, sorrateiro, contornou a todos, sua toada elegante.

André, trêmulo, se deixaria conduzir em servilismo pela eternidade sem luz e, portanto, sem espelhos, vocação para a obediência. Viviane se plasmaria ao outro até que de si não restasse mais nada, fundida na pele que tomara de préstimo.

Joana e Adônis se soltaram em ligeira repulsão para bem longe, sem a necessidade do gesto furtivo, por algum tempo livres dos olhares mutuamente recriminadores, sequer um resquício de paixão, nem mesmo projetos comuns, a não ser a inércia e espera pela ruptura que covardes, adiavam. De olhos arregalados Joana apalpou a mesa próxima até tocar na caixa de chocolates que relanceara pouco antes do apagar das luzes. Agarrou três bombons e os engoliu, lágrimas nos olhos. Enfiou outros tantos no bolso.

Adônis sorveu o silêncio e deu-se conta de que vivera até aqui circulante no seu entorno sem jamais alcançá-lo: encontrou então o sofá fofo e nele se aninhou, calmo, feliz, em paz. Rosália, zoada de pensamentos entrecortados, seguia em mudas vilanias naquela sala densa. Viviane, alvo nos seus planos, a cunhada a quem suportava nos seus domínios porque o marido Norton se assegurava nas reuniões familiares as quais Rosália, desenraizada de tudo, profundamente desdenhava. Rosália pensou que sim, na plena escuridão de que era feita, poderia facilmente chegar às facas de trinchar. Viviane. Era tal o seu prazer em Jorge que só os sentidos respondiam naquela hora. Lúcia queria voltar logo para casa, ver o filme que deixara engatilhado.

Norton sentiu vontade de comer torta de banana, naquela hora. André achava que nunca mais seria capaz de dormir. João lembrou-se de Mário, de Bete, Pedro, Paula, tanta gente. Jorge calculava que logo mais sairia o resultado da loteria federal, prêmio gigantesco. Mas, afinal seria um problemão administrar tanto dinheiro sem se esfacelar todo. Melhor seguir na vida dos comuns. Joana teve prenúncios de felicidade, a lua em Sagitário acenando grandezas para o mês que entrava.

Letícia concatenou enfim que havia ali cheiro muito acentuado de terebintina. A salamandra não pensou porque os seres de sangue frio que rastejam pela noite não pensam. O gato só sentiu. O céu arrefeceu as canivetadas, a enxurrada correndo grossa em porcarias para os rios, levadas pelas poderosas correntezas até o mar, este que depois, em seu ronco de espumas, no seu ir e vir infinito, as devolveria fertilizadas de algas e plânctons à praia.

Os cães iniciando sua sinfonia de latidos e uivos na madrugada agora imóvel, a salvo das rebeliões do céu, dando certo tom tenebroso àquele entretempo em que as vozes ainda não saíam das bocas na sala.

As pulsações em Rosália atingindo algum ápice perigoso, de repente, ela sentiu o macio, que imediatamente não decifrou. Um levíssimo roçar de coisa suave no seu joelho esquerdo. Toque que durou o suficiente para ela entender que havia amor ali, o que foi bastante para numa quase vertigem alçar Rosália de suas trevas. Quis que aquele contato se tivesse detido. O seu corpo já tomado por calor bom. Vagou pela sala escura procurando pela macieza, que não sabia ser do rabo espetado do gato que diariamente enxotava de sua casa.

André exasperou-se. Um corpo latejando sobre si como um íncubo. Decidiu que não suportaria mesmo a eternidade, tempo demais para se estender e se dar assim à fome insaciável de alguém. Lúcia, que apenas gargalhara no que parecia ter sido a evocação daquele breu, segura a um canto, justo no vértice de duas paredes firmemente erguidas restou, muito temerosa da extensão das possibilidades em si. Melhor ficar quieta e muda.

Letícia recebeu de volta a carne suada de João, pronta a prover o que ainda lhe faltasse. Redimida de haver agarrado a mão frouxa de Rosália, algo repulsiva assim intimamente sentia. O chocolate excessivo seguia quente pelos dutos de Joana, enjôo. A pasta marrom derretida no bolso do casaco. Adônis e Joana não se buscaram, perplexos por não fazê-lo ao ritmo do costume, firmaram-se em braveza, na certeza aclarada no escuro de que, a partir dali, cada um se bifurcaria em seu próprio caminho. Norton, muito estável, do jeito que fora abocanhado pela noite dela saiu, como se nada, tivesse acontecido.

Rosália, que no auge do festim imaginário e sanguinolento fora capturada pelo lampejo de um amor, manteve-se na faixa da segurança de seu inferno particular, lavada pelo perdão brotado dentro de si. Farta do ardido daquela sardinha estragada, a salamandra ganhou a frescura verde do orvalho, devolvendo-se aos charques limosos que eram o seu lugar. Alguém faiscou luz tremulante no pavio de uma vela e todos se asseguraram de que não, o caos não havia se instalado incontornável. Todas as coisas quase como antes, ali, naquele lugar.

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