Apodrecendo verde

Por: Jane Mahalem do Amaral

Às vezes uma fruta apodrece antes de amadurecer... Ainda verde, presa ao pé, ela não cumpre seu ciclo, não realiza sua missão... Apodrece. Fica velha, sem passar pela mocidade. Enruga sem nunca ter tido uma pele lisa e saudável. Fica opaca antes de ter recebido a graça da luz. Não mostra sua cor, pois nunca conheceu os matizes...

Há uma música de Vinícius de Moraes que diz assim: “Quem já passou por essa vida e não viveu, pode ser mais, mas sabe menos do que eu, porque a vida só se dá pra quem se deu, pra quem amou, pra quem chorou, pra quem sofreu... O que o poeta nos sugere é a troca. E trocar é arriscar: dar o que tem e receber o que o outro pode oferecer. Nessa dança, muitas vezes, preferimos não perder, já que não temos certeza do que iremos ganhar. Assim então, desde bem pequenos, aprendemos a não dividir, a não dar e a não amar, pois isso poderá trazer choro e sofrimento. Tudo se fecha em um círculo egóico, a vida não devolve e a plenitude nunca chega. A insatisfação torna-se constante e cada vez mais nos aprisionamos em correntes invisíveis.

Não sei se posso fazer essa comparação, mas em um versículo do evangelho de Marcos, Jesus diz uma frase difícil de ser compreendida: “Porque qualquer que quiser salvar a sua vida, perdê-la-á...” Como seria isso? Todos nós queremos salvar nossa vida, não é? Pois acho eu que Jesus fala é desse medo de se dar à vida, do desejo de guardar tudo para si, de preservar para o depois.

Revejo pessoas que conheci, há bastante tempo, e ao reencontrá-las percebo uma luz no olhar que, apesar dos sinais evidentes da velhice, brilha sempre de um jeito novo. Essas pessoas amadureceram encarando o desconhecido e quantas vezes se deram à vida, sem avaliar o valor da troca. Elas passaram pelos diferentes ciclos e, em cada um, conseguiram sair em espiral. Já em outras pessoas, com a mesma idade, reconheço a estagnação do não vivido. Os olhos não brilham, as rugas não nasceram dos sorrisos e a velhice adquire aquele ar de desgaste e tristeza. Penso que elas não viveram em espiral, mas ao contrário, se fecharam em círculos e não se ofereceram à entrega.

E o nosso poeta Vinícius continua na sua música: “Abre os teus braços, meu irmão, deixa cair. Pra que somar se a gente pode dividir. Eu francamente já não quero nem saber de quem não vai porque tem medo de sofrer. Ai de quem não rasga o coração, esse não vai ter perdão.”

A cada dia peço sabedoria e coragem para não apodrecer verde...

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