Menininha

Por: Janaina Leão

Pequenina. Sete anos, nem sabia o que significava número de sorte, nem signo.

Cabelinhos lisos e castanhos, olhos cor de mel. Covinhas. Bonequinha de porcelana para um tio.

Vontade inabalável de fugir de casa. Mohamed era um moleque engraçado. Filho dos turcos da esquina, totalmente inconsequente menino mesmo. O pai pregou umas tábuas por cima das lanças do portão. Porque o “Mamedim” sempre tentava fugir por ali. E se machucava.

— Ai que muleque burro! Pensava eu em idéias castanhas, sem nenhuma referência teórica.

Fiz melhor. Certo dia deu um “click”, saí pela porta da frente e começou minha primeira aventura.

Até a esquina eu fui tensa, olhando pra trás sem dar muita pista de que estava fazendo coisa errada. De repente ouço:

— Janaaaaaaaaaaaaaaa aaaaaíííí íííííííííííííínaa aaaaaaaaaaaaaaaaa.

Em desabalada carreira eu parecia ter ouvido disparo de “cem metros rasos”.

Disse mamãe, depois do evento :

— A gente só via seu cabelinho pulando de um lado pro outro!

Corri de uma esquina a outra mais rápido que um beija-flor com pressa.

Olhando para trás algumas vezes, pude ver minha mãe chinelo na mão- correndo e gritando meu nome e um pouco atrás, vovó com a mão na cintura, só olhando e pitando o cigarro dela. Olhar sábio de quem já sabia o que ia acontecer, e por isso nem gastava energia.

Eu ri...muitas vezes durante a corrida. Gargalhei, chorei de medo da surra, mas eu estava Feliz. Coraçãozinho de sete anos, conhecendo a Felicidade do Risco.

Porém como vovó suspeitou: eu não passei da esquina.Não tinha ainda permissão para atravessar a rua...e outras coisas, que eu obedecia - simplesmente.

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