Para onde vão?

Por: Mauro Ferreira

Naquela época, era chique usar tênis Camazze, produzido aqui na Franca, marca que não vejo mais em lugar algum. Os entusiastas da bola laranja torciam pelo basquete da Satierf ou do Dharma. Ainda se encontravam Mirinda, Grapete e Seven Up nas prateleiras do supermercadoSuperbox,embora ainda não existisse a loja da Blockbuster e nem filmes em DVD, a tecnologia dos vídeos era VHS. Era final de 1988 quando encontrei o Correa Neves na calçada da rua Ouvidor Freire, o Comércio da Franca ainda funcionava por ali e ele me convidou para colaborar em seu jornal. Fiquei até 1993. Depois, retornei em 2005, quando o jornal já era outro.

Naqueles tempos ainda não havia internet e computador era artigo de luxo para poucos. Eu escrevia numa velha máquina de escrever Olivetti (com cópia em papel carbono para conferir o texto), que está jogada até hoje num canto da casa, tenho dificuldade em desvencilhar-me definitivamente dela. Nem os ladrões que entraram recentemente na minha casa a quiseram, preferiram furtar bugigangas eletrônicas, mais leves e valiosas.

A Olivetti era fabricada às margens da via Dutra, em Guarulhos, num prédio interessantíssimo projetado pelo importante arquiteto italiano Marco Zanuso em 1956, ligado à escola organicista, que utiliza tijolo armado. Recentemente, passei por lá e pude ver os restos do prédio, incorporados a um grande shopping center, irreconhecível.

O fato é que o texto tinha que ser entregue pessoalmente na redação do jornal. Eu ia ao centro da cidade diariamente para tarefas bancárias no Banespa, no Real e para, pasmem, buscar a correspondência numa caixa postal, coisas que praticamente desapareceram, pois a internet mudou tudo. O Correa Neves tinha o maior orgulho da máquina Goss Community que imprimia o jornal, a todo novo colaborador ele apresentava aquela imponente montanha de metal, graxa e tinta pegajosa, de característica modular, moderníssimo equipamento após o desaparecimento dos linotipos, que antes tinham suas letras catadas a mão pelos gráficos dos velhos diários matutinos.

Quando o Comércio modernizou sua gráfica e estrutura recentemente, outra máquina veio da misteriosa Índia e a Goss, aposentada, desapareceu do noticiário. Quase todas as marcas citadas neste texto, à exceção do Comércio, também desapareceram ou perderam visibilidade. Há gente que sai quase diariamente na imprensa e, de repente, desaparece também, não por ter morrido, mas por ter mudado da cidade, de ramo, por falência financeira e outros motivos que desconheço. Até os tapas nas mesas de apuração que a maioria de bancários das juntas apuradoras aplicava quando concluía sem erro mais uma urna das eleições locais sumiram. Teriam sido abduzidos? Não sei quem matou Odete Roitman nem onde estão os ossos da Dana de Tefé e, na dúvida, sempre me pergunto: para onde vão as Goss do mundo?

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