O Artista, de Michel Hazanavicius

Por: Maria Luiza Salomão

Chaplin, no filme rodado a partir de sua autobiografia, e estrelado por Charles Downey Jr., indignou-se quando, pressionado pelo “progresso”, teve que repensar a história do vagabundo, seu personagem até então mudo, que tudo falava em mímica, e não emitia qualquer som. No Rio de Janeiro um grupo de pessoas, um clubinho, se reúne para assistir e comentar filmes mudos, e se programaram, no carnaval, para assistir uma seleção deles, franqueando a quem quisesse aderir ao grupo.

Michel Hazanavicius, fã (como muitos) deste formato filme mudo acalentou por anos a ideia de realizar a proeza de retornar a estes primórdios do final da década de 20, século XX, por acreditar na beleza e na força da imagem para transmitir histórias e emoções. Não sei o diretor esperava este sucesso para O Artista, que levou o Oscar de Melhor Filme (esperado), Melhor Direção (não era o favorito), Melhor Ator para Jean Dujardin (fabuloso, mas o favorito era G. Clooney, in Os Descendentes, em bela performance), Melhor Figurino e Melhor Trilha Sonora (deliciosa).

Dentre todos os indicados ao Oscar, quis ver O Artista no cinema, acompanhar a reação da plateia. Foi em um domingo de carnaval e a sessão das 17:40 h lotou com casais de meia idade. O clima (a gente sente) foi de ternura e relaxamento. O tema (ingênuo e simples) - um ator, Valentin (Dujardin), estrela de Filmes Mudos se recusa a acompanhar o fluxo da nova moda, o Cinema Falado, e começa a decair, o ano era 1927. No pico da fama conhece uma fã, que se destaca no meio da multidão, Peppy, e favorece o início de sua carreira cinematográfica. Valentin é desprezado, repudiado, pela arrogante recusa de acompanhar o “progresso”, e sua queda é acompanhada ao longe por Peppy, que se torna estrela de Hollywood (Bérénice Bejo, ótima no papel), que tenta salvá-lo de suas peripécias autodestrutivas. O leitor pode imaginar o happy-end, e os entremeios vividos pelos personagens.

Muitos associaram a premiação à nostalgia de Hollywood. Refletindo sobre o filme pensei em um Oscar para a Simplicidade, para a Confiança do Diretor Michel no poder da Lanterna Mágica. No poder da Música, grande personagem do cinema mudo, e na possibilidade de envolvimento na história que, simples e direta, sem voos intelectuais e filosóficos, é contada com os velhos recursos da arte milenar do Ator e da Atriz, sem grandes cenários e Efeitos Especiais. Forma e conteúdo casados.

Em meio a super-super-super produções, escalada tecnológica dos recursos cinematográficos, destacou-se afinal o que não precisa de pirotecnia, adornos ou bandeiras, nem segue modismos. Quem roubou a cena no espetacular Oscar foi o Grande e Eterno Personagem de todos os Tempos, aquele que move a Arte e O Artista: a Emoção.

- Imagética e muda, a arcaica e onipresente, secular, a resistente, insistente, não falseável, a humana Emoção volta à cena, celebrada.

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