Bálsamo

Por: Eny Miranda

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Do jornal Comércio da Franca, chega-me, em letras e imagens, um irresistível convite. Fala de brotamentos e rebrotamentos; de minúsculas sementes - aninhadas em pequenos e amargos frutos - produzindo beleza em grande escala; de fontes e promessas de vida espalhadas pela cidade.

Impossível resistir.

Caminho os caminhos ali mencionados, agora, veredas, vias de renascimento.

Sim, lá estão elas, eretas, em muitas ruas; levemente inclinadas sobre as águas, nas avenidas marginais: as quaresmeiras enfloradas - o violeta presidindo esplendidamente as copas, em precoce manifestação de com-paixão e promessa. Guardo as imagens nas retinas e a mensagem no coração.

Quaresma instalada, fecho os olhos e busco os registros. As árvores me vêm - mais essência que imagem-objeto, a “evocar os reinos incomunicáveis do espírito, [...] onde o traço se torna existência”, nas palavras de Michel Seuphor. Sua visão não me diz figuras e formas, sim dores e redenções; mortes e revivências: refazimento. Possibilidade. Não é por acaso que nascem de frutos amargos.

Como, em Proust, a visão das raparigas em flor evocava “essa perpétua recriação dos elementos primordiais da natureza”, em mim, a visão das quaresmeiras traz a recriação da Luz e da Beleza nos olhos cegos, e da Poesia no coração esgotado. Quaresmeiras em flor são, para mim, braços abertos, pulmões expandidos, ar transpirado em cores e pétalas. Ressurreição. A lembrança do eloquente silêncio das árvores desperta-me a alma. E a mim, como a Cruz e Souza, “Nada há que me domine e que me vença / Quando a minh’alma mudamente acordaà / Ela rebenta em flor, ela transborda ...”.

Então, quaresmeiras e eu nos fundimos em uma só florada, e de tal forma nos entrelaçamos que “as raízes delas se misturam com os [meus] alicerces”, à maneira das buganvílias de Drummond. Elas e eu somos, nesse momento, fontes brotadas da conjunção de águas que afogam e oxigenam, e de sóis que calcinam e iluminam.

Abro bem os olhos. Neles deixo que, líquida, se exponha essa alma, a refletir e a absorver a mensagem daquelas vivas metafóricas ilhas florais; a embebê-la e a nela embeber-se para, quem sabe, apresentá-la - verde, úmida e viçosa - a outros olhos, a outras vidas, em outro convite, nestas Nossas Letras.

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