Retratos

Por: Everton de Paula

No início da década de 1950, na extrema pontinha geográfica que forma o nordeste do estado de São Paulo, as cidades e vilarejos se uniam por estradas de terra e outras vicinais. A cidade principal era Franca, com uma população de quase 40 mil habitantes. A segunda mais populosa era Batatais, distante uns cinquenta quilômetros da chamada capim mimoso. Eram, naturalmente, ligadas por uma estrada de terra e por uma linha férrea, percorrida pela empresa Mogiana, que fazia o percurso Campinas-Uberaba. De Franca a Batatais “descia-se”, costumavam dizer, por causa da altitude da primeira, mais de mil metros. Essa estrada era pitoresca, pois dela se avistavam as montanhas de Minas no horizonte azulado. As pastagens de uma fazenda se separavam da vizinha por troncos irregulares nos quais se fixavam arames farpados. As porteiras se sucediam e em quase todas elas lia-se uma propaganda escrita a mão, com cal: “Casas Pernambucanas”. Era natural que assim fosse, pois o comprador comum que se encontrava nessas lojas era o fazendeiro, os colonos e a parentalha. Vendiam brim para o fazedouro das calças, a botina que haveria de suportar os caminhos pedregosos da região, o indispensável lampião de querosene já que a eletricidade não passava pelas bandas rurais, o capote de tecido semi-impermeável do peão madrugador, o chapéu, a chibata, as botas de cano comprido, esporas, a foice, a enxada, o enxadão, a sela, o arreio, a navalha, o facão, a sementeira manual, malas, baús e arcas para o enxoval da pretendida, carretéis de linha, máquinas de costura manuais e de pedal, utensílios para a cozinha... Enfim, essas tralhas sem as quais o colono, o capataz, o trabalhador rural e toda a família não sobreviveriam um dia sequer no escondido das fazendas...

Essa estrada era pródiga em matas e arvoredos nativos. Predominava o cerrado de clima quente, com períodos variados de chuva e seca. A vegetação destacava-se pelas gramíneas, arbustos e árvores esparsas. Na beira da estrada apresentava-se avermelhada de poeira, o que era causado pelas passagens de algumas jardineiras e mesmo carros de passeio. Às vezes, o clima ficava repentinamente fresco e úmido; ocorria quando eucaliptos e bambuzais se entrecruzavam nos ares, formando um túnel por centenas de metros. Bucólico e misterioso esse encontro entre o descampado claro-seco e o fechado penumbra-úmido. O viajante tinha a alma despreocupada quando não havia vegetação alguma que o oprimisse, que o escondesse; mas temia, sabe-se lá por que, quando tinha de atravessar esses tais túneis verde-musgo, úmido, sugerindo golpe, traição. Coisa de matuto!

No meio da viagem, após longo e perigoso declive, havia uma ponte de cimento armado sobre o piscoso rio Sapucaí. Antes de atravessá-la, para quem se dirigisse a Batatais, topava à direita com uma porteira; depois dela um caminho marcado pelas rodas de carroças e carros de boi, no centro a grama esmeralda. Vamos percorrê-lo.

Surpreende, já de início, à esquerda, um pinheiro araucária, típico das regiões frias do sul e dos picos da Mantiqueira. Sugere uma mensagem de boa chegada, mas só para aqueles incautos que desconhecem as histórias do local. Encanta a passarinhada de penas vivas e cores alegres. Tico-ticos serelepes, bem-te-vis assanhados, pássaros-pretos agourentos, a gritalhada de papagaios e bandos de periquitos sem rumo, tucanos soberbos... Passa-se perto das margens do Sapucaí e sente-se um cheiro bom e renovador de raiz umedecida. Segue o caminho sem grandes variantes, no balangolanço da carroça puxada por um velho cavalo. Chega-se a uma fazenda. Nestas bandas, o dono da fazenda mora na cidade; quem habita a sede e comanda os colonos é o capataz. O primeiro deles é o Lombardi, descendente de italianos recém-imigrados.

Recebe o viajante com ares festeiros. Oferece água e, havendo apeada, dá-lhe o café coado na hora, queijo e goiabada, às vezes até pão-de-queijo assado no forno a lenha. “De onde vem?”, “pra onde vai?”, “que vem fazer?” “que é da família?”, “descansa um tiquinho mais!”, “fica pra dormir”, “quer leite do curral?”, diálogos curtos, obsequiosos, preliminares de um caso qualquer que se desenrola naturalmente. O visitante fica surpreso com as gentilezas do homem, satisfaz-se com o que lhe é oferecido, agradece e parte vereda a fora.

Segue o caminho.

Desce contornando as moitas de assa-peixe e capim gordura alto e afiado. Aqui e acolá flores das mais diversas formas e cores. Uma capivara e sua prole atravessam ligeiro o caminho, ao contrário de algumas vacas que empacam e, desanimadas da vida rotineira, mastigando sempre o mastigado, desconversam e desconhecem a presença da gente, que espera e espanta. O ipê amarelo se destaca de doer a vista tela de paisagista. Uma pequena área de mato roçado para novo plantio. Desce-se capoeira abaixo. Não há mais céu: a vegetação agora é teto cerrado, entrecruzado, causando sombra, umidade, silêncio e calafrio. Nenhum pássaro, nenhum pio, nenhum mugido, nada. Só a sensação de se estar desamparado. Torna a subir. Sai-se do capoeirão alto. Claridade, chão seco, passarada, segurança. Após os bambus, vencendo a última etapa, surge frondosa a paineira rompante e, à sua frente, a sede de outra fazenda. De propriedade dos Gonçalves.

O capataz ali habita com sua mulher e filharada. Doca, negrão de metro e oitenta, magro e encurvado. Quando sorri mostra a brancura dos dentes e um filetezinho de ouro incrustado. Ao contrário de Lombardi, é mais reservado, desconfiado, passos medidos, mais escutador que falador. O viajante apeia, mas vai sendo recebido de golinho, caminha aos poucos e é quase detido na varanda. Doca não escancara a casa, os cômodos de telhado à vista e paredes enegrecidas pela fumaça do fogão de lenha. Ali mesmo na varanda procura esgotar o assunto. A tarde anuncia seu cansaço e aos poucos vai cedendo lugar ao princípio de noite. Agora jeito não tem mais. Doca convida e o viajante fica para dormir, que a janta se perdeu pelas quatro da tarde. Grilos, vagalumes, estrelas, lua nova.

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