A árvore da vida e a outra árvore

Por: Sônia Machiavelli

162722

Não foi só o júri do respeitado Festival de Cannes que se dividiu antes de conceder a Palma de Ouro 2011 ao filme A árvore da vida, de Terrence Malick. Decorrido menos de um ano, as plateias ao redor do mundo continuam se polarizando. Há os que acham o filme extremamente aborrecido. Há os que o veem como obra máxima do cinema, em pé de igualdade com Uma odisseia no espaço, de Stanley Kubrick, obra que também continua dividindo espectadores. Enquanto épicos, nenhuma dúvida, são ambos admiráveis, feitos, como tudo no cinema, em primeiro lugar para o olhar; depois, para a reflexão.

Mas olhar e pensar às vezes aflige, se não há relação de causa e efeito no que se vê. Não dizem os neurocientistas que nosso cérebro foi formatado pelo processo evolutivo para fazer perguntas e receber respostas? Não são poucos os que têm deixado as salas na primeira meia hora de exibição, sem perceber lógica entre o que vinha sendo mostrado e o que passa a ser exibido, ainda que reconhecidas como de incontestável beleza as imagens assinadas por Emmanuel Lubezzki. Dos registros grandiosos, como o Big Bang, aos líricos, como o voo dos estorninhos, passando pelas turbulências do magma e pela abundância da água em constantes metáforas de vida e de morte, elas conferem ao filme a comoção dos grandes poemas. Não narramos um poema, quando muito o descrevemos. Isso se aplica À árvore da vida, já definida por alguns críticos como “poema visual”. Assim como um poema é construído por versos que só fazem sentido quando ligados uns aos outros, não necessariamente numa ordem linear, o filme se ergue em flashes que vão se
conectando em blocos de sentidos. Fragmentado ao extremo, com idas e vindas na linha do tempo, pautado por silêncios que incomodam ouvidos viciados, marcado por interrogações instigantes (“por que ele nos machuca, nosso pai?”; “se Deus veio, veio disfarçado de quê?”), pede desligamento da lógica, para que se possam sentir as imagens e reagir a elas com emoção. A experiência sensorial pode sustentar uma leitura mais lúcida da própria existência, com seus fardos ora leves, ora pesados. Somos, no mínimo, levados a entender e aceitar que cada um vive como pode, dentro de seus limites, premido por exigências internas e externas, diante de circunstâncias imprevistas, vulnerável aos graus de tolerância exercitados também frente à natureza que busca “satisfazer a si mesma.”

A natureza talvez seja a protagonista deste filme religioso, no sentido mais profundo da palavra, o de buscar uma religação com o criador. E a oposição entre natureza e graça é a espinha dorsal do filme, em prévia anunciada por Mrs O’Brien, a mãe: “as freiras nos ensinaram dois caminhos possíveis para a vida: o da graça e o da natureza. Você precisa escolher qual deles seguir.” Torna-se possível, desde então, e por tudo o que irá despertar nossas emoções, pensar que o título se refere à árvore da vida em oposição à árvore do conhecimento do bem e do mal, ambas citadas no Gênesis. A árvore da vida é a da graça, entendida esta como dádiva de Deus. A árvore do bem e do mal é a da natureza, na qual estamos nós, humanos, inapelavelmente mergulhados. Até à desobediência de Adão e Eva, a árvore da vida produzia doces frutos, sem que se precisasse despender qualquer esforço para obtê-los. A do bem e do mal exigiu de Adão, Eva e seus descendentes labor sem fim.

Ao leitor que busca um mínimo de sinopse, vamos dizer, de maneira bastante reducionista, que o filme conta a história de um casal americano e seus três filhos pequenos no começo dos anos 1950 no Texas. O pai severo (Brad Pitt) ama os filhos com um jeito repleto de cobranças. A mãe tolerante (Jessica Chastain) parece banhada por uma luz que remete à dos bem-aventurados. A morte do caçula terá consequências dolorosas na vida de todos e repercussões mais traumáticas na do irmão mais velho, Jack (Hunter Mc Cracken na infância, Sean Penn já adulto). É o olhar deste personagem que nos conduzirá de forma entrecortada por toda a história, nos convidando a transitar pelo significado abrangente do verbo viver.

Que não se esperem respostas ou fórmulas do diretor, elas não existem. O que há é oferecimento generoso de elementos para estimular reflexões que variarão de acordo com as singularidades. Um deles é a voz em off que recita, na abertura do filme, o capítulo 38 do Livro de Jó, versículos 4 a 7. Outro, as palavras da mãe, no final, que soam como prece e podem nortear os que buscam um caminho de conforto mínimo para a alma: “ Tenha curiosidade, esperança, ame e perdoe...” Parece fácil. Sabemos que não é. Pressupõe integrar os caminhos da graça e da natureza. E não opor as árvores.


OUTSIDER E RECLUSO

Terrence Malick

Este cineasta pertence à geração que renovou o cinema norte-americano nas últimas quatro décadas. Formam com ele neste feixe de originalidade e excelência Martin Scorsese, Francis Coppola e Brian de Palma. Cada um conquistou fama, respeito , admiração e reconhecimento por traços peculiares de sua produção cinematográfica.

O que distingue Malick é o ritmo, o do trabalho e o da obra, considerados muito lentos pelas gerações mais jovens. Talvez não seja bem lentidão a palavra exata. O termo mais apropriado seria perfeccionismo. Entre um filme e outro ele leva mais de meia década escolhendo ou escrevendo roteiros, buscando personagens, elegendo parceiros que se conduzam segundo seus critérios de qualidade. Em razão disso seus filmes são poucos: Terra de Ninguém e Cinzas do Paraíso, da década de 70; Além da Linha Vermelha , anos 80; Novo Mundo, anos 90; A árvore da vida, de 2011. Este último começou como projeto nos anos 1970. Chamava-se Q. Concebido como esforço para “contar a história da vida, do universo e tudo o mais”, como disse num momento de humor o ator Douglas Adams, A árvore da vida é obra introspectiva, filosófica, contemplativa.

Muito respeitado profissionalmente, Malick é pessoa excêntrica. Não concede entrevista, não responde e-mails, não frequenta festas, não se deixa fotografar. Só existem dele duas fotos. Uma delas é a que ilustra este texto.

Serviço
Título: A árvore da vida
Gênero: drama
Direção e roteiro: Terrence Malick
Onde: nas locadoras

Envie seu texto
e faça parte do Nossas Letras