Ana

Por: Claudia Filipin

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(para todas as filhas de Ana e, em especial, para Dyonísia, minha avó)


Nunca fora bela, mulher rústica e de nariz grande, nem altura tinha. No entanto, proporcional à sua falta de atrativos, vieram a doçura, a coragem, a fome de viver. E também a retidão, o caráter inatacável, a força para lutar.

Na velha Noroeste, onde Deus há muito havia esquecido de colocar seus olhos, fugiu de casa para casar-se por amor. Ana foi caçada feito bicho pelo pai. Quando o velho a encontrou e arrastou-a pelos cabelos de volta para a vila (fora prometida para o rico primo agrimensor), já era tarde: estava de barriga. Dentro dela crescia o fruto do amor que sentia por Lourenço Marques, homem para o qual garbo e beleza não faltavam. Isso nos anos vinte.

De volta, alquebrada e humilhada espetáculo para as maldosas de plantão -, foi cruelmente surrada pelo progenitor com grosso rabo de tatu. Enraizou-se na cama de colchão de palha por quase três meses, pura ferida , sangue pisado. O pai sentiu sua honra lavada; a mãe fazia secar-lhe as escaras, não havia muito mais o que fazer além de tirar-lhe as dores e chorar às escondidas. Ela, na verdade, apesar de descaída, sorria por dentro: que primo agrimensor que nada!, iria mesmo era se casar com o homem que havia escolhido, e se deitar com ele para seu todo sempre. Estava feliz.

Passou com Lourenço todos os dias de sua vida, e se fosse outra, haveria de desistir. Mas não ela. O destino - esse personagem incontrolável de nossas histórias - pregou-lhe peças bem pouco engraçadas, e o que Ana fez foi aceitar e lutar, afinal era o homem que amava.

Lourenço bebia bem mais do que devia e seu temperamento não diferia muito do pai de Ana. Era sujeito bruto, violento, narcisista, mulherengo. Principalmente mulherengo. Dono de uma beleza estonteante e de um charme incomum, não resistia a um rabo de saia, e ninguém lhe escapava: vizinhas, conhecidas, prostitutas, parentes. Acabou com a reputação de várias donzelas.

Ana sofria, mas não se esquecia da surra de rabo de tatu, cujas marcas ficaram por todo seu corpo (e alma) , permanentes feito tatuagem. Resistia, pois. Entre o exercício de viver e sobreviver, pariu dezessete filhos, onze dos quais fez o parto sozinha. Um deles nasceu no pasto enquanto Ana ordenhava a única vaca que tinham. Caía uma chuvinha fina nos confins da Noroeste porque Deus, nesse dia, lembrou-se deles (tão esquecidos!) e estava de bom humor. Entre sangue, suor, estrume e lágrima chorada pelo céu, nasceu um bebê bonito e roliço.

Enquanto isso, Lourenço aprontava todas: gastava o parco salário nos jogos de azar e com as putas, ateava fogo no circo só para, literalmente, “ver o circo pegar fogo”, aprontava arruaças no pequeno vilarejo em que viviam e acabava na cadeia, desaparecia por todo o final de semana para chegar na segunda com a cara mais lavada do mundo (sem dinheiro, com fome, carente). E Ana acolhia, sempre acolheu, pois ele era o seu homem. O SEU homem.

Vieram para Franca no final dos anos cinquenta, para acabar de criar os filhos e plantar suas próprias sepulturas.

Já faz um tempo que Ana partiu. Foi em 1990 (se não me engano) vencida pelo cansaço e pelo enfisema. Dona de uma espiritualidade incomum, benzeu-nos todas antes de ir (a mim, minha mãe e minha avó - sua primogênita). Deu-nos conselhos sobre a vida, e o mais importante deles vou guardar enquanto viver: “Tentem ser felizes!”.

Lourenço morreu bem antes, nos anos setenta, em seus braços, pedindo perdão e ordenando que lhe fizessem a barba. Perdeu tudo, menos a majestade. Ele ainda sorria com os olhinhos apertados, e tinha um jeito tão doce de afagar a cabeça de Ana que nenhum outro ser humano no mundo seria capaz de fazê-lo. A isso ela chamava de amor.

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