Trazendo o observador

Por: Jane Mahalem do Amaral

“O tolo dorme como se já estivesse morto, mas o mestre está acordado, vive para sempre. Ele observa. Ele tem clareza.” O Buda, 500 aC

Na nossa apressada cultura ocidental, pouco, ou quase nada, nos é ensinado sobre a observação. Observar, no sentido mais comum, é apenas olhar com mais atenção para algo ou alguém. Nas tradições orientais, como o budismo, observar é estar acordado e presente no aqui e agora. Isso significa clareza e discernimento. Já nos acostumamos a nos prender ao passado ou a esperar o futuro e quase nunca vivemos de maneira plena o agora.

Eckart Tolle, no seu livro, O Poder do Agora, nos ajuda a compreender melhor o que é estar presente e acordado, como nos alerta o Buda. Ele nos diz que quando estamos em um estado de presença intensa, estamos livres do pensamento. Nossa mente é que nos carrega para longe do agora, julgando continuamente as coisas e atribuindo nomes e valores a tudo que nos rodeia. Se conseguimos nos livrar desse mecanismo, livramo-nos também do sofrimento e da infelicidade. Isso pode parecer um simples discurso de autoajuda, mas nossa percepção pode alcançar mais longe. Podemos (e já fizemos isso várias vezes...) experimentar fazer alguma coisa, seja ela qual for, com plena atenção e depois fazer a mesma coisa sem estar atento, ou seja, viajando, como dizem os adolescentes... Pensemos em algo bem simples como cortar um legume, lavar uma louça ou dirigir um carro. Quando centrados, observamos cada movimento. Então não temos pressa em acabar porque estamos vivendo plenamente aquele momento. Para o agora não há impaciência, nem espera porque ele é a certeza de que o único momento real é aquele que acontece no presente. O passado e o futuro são apenas ilusões da mente.

Para aprender um pouco mais com o agora é importante trazer o observador, figura indispensável para a Física Quântica que hoje o reconhece como condição fundamental para se compreender o que modifica em um processo, quando ele aparece. Falo, porém, é de um simples exercício de nos ver nas diferentes situações de vida. Seria como se eu pudesse sair do meu corpo, dar um passo atrás e desse lugar me olhar, naquele momento, falando, agindo, rindo ou chorando. Sou eu me vendo do lado de fora de mim. Perceberei um barulho mental, um sofrimento para ter razão sobre determinado assunto, para fazer valer minha opinião. Também posso me ver apressado porque não vai dar tempo de acabar o que planejei. Consigo observar minha raiva e impaciência ao ter que esperar por alguém ou por algo. Uma perda da serenidade. Perda da clareza e do discernimento. Estou sendo arrastada novamente para o tempo e o tempo será sempre o passado ou o presente, nunca o agora. O observador pode ver isso. Sem ele, essa consciência não é possível.

Jesus, nas suas bem-aventuranças, alertou os seus discípulos e ressaltou o valor do agora: “Não vos inquieteis com o dia de amanhã, pois o amanhã trará os seus cuidados; basta ao dia o seu próprio mal”.

Adélia Prado, na sua dimensão divina de poeta, nos diz: “Deus de vez em quando me tira a poesia. Olho para uma pedra e vejo uma pedra”. Como estamos nos olhando? O que podemos ver em nós , além dessa simples casca que nos dirige e que chamamos de eu? O observador nos dará essa reposta quando, junto com ele, vivermos a plenitude do Agora.
 

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