Dona Bertha

Por: Luiz Cruz de Oliveira

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Eu tinha entre treze e catorze anos quando comi filé pela primeira vez. Em casa, tentei traduzir para a mãe como era macia e como era gostosa a carne que eu comera. Não soube explicar.

Carne sempre fora raridade no cardápio lá de casa. Bem que meus pais acreditavam nos médicos lá do Posto de Saúde que explicavam:

- Não adianta ficar dando só lombrigueiro... Essas crianças precisam comer carne, verdura... se não vão continuar barrigudinhas e com esse amarelão.

Crença e boa intenção talvez evitem o inferno, mas asseguro — experiência própria — não evitam anemia e outras doenças.

Pois não é que as coisas começaram a mudar para mim quando eu entrava na adolescência? Dona Bertha Caleiro Guimarães ficou sabendo que eu saía do trabalho, na Casa Higino Caleiro, pouco depois das dezoito horas e ia diretamente para a escola, onde as aulas começavam às dezenove horas. Achou absurdo que eu ficasse sem jantar todos os dias e ordenou que me mandassem passar toda tarde em sua casa para comer alguma coisa antes de ir para a aula.

Quase morri de vergonha: poderiam pensar que eu estava esmolando. Quase morri de vergonha: não sabia andar em casa encerada, não sabia usar faca e garfo na frente dos outros. Todos os constrangimentos foram, porém, superados pela ordem da irmã do meu patrão, o senhor Higinote. Obedeci.

A Dona Bertha morava na Praça Nossa Senhora da Conceição, numa casa grande, localizada entre o Foto Galo e o Bar Tubarão.

Na primeira vez que fui lá, bati à porta, fiquei esperando no alpendre, com o rosto pegando fogo. Conduziram-me à cozinha, onde duas mulheres - Tida e Teresa - mandaram-me sentar à mesa enorme, colocaram diante de mim um prato fundo, cheio de arroz, de feijão, de verduras, de carne. Sem levantar os olhos do prato, comi um bife grande de filé. E, na vida dos meus olhos espantados, aquilo virou rotina.

Mais doces que as sobremesas diárias eram as preocupações da Dona Bertha.

- Comeu direitinho, filho? Quer mais alguma coisa? Você tem dinheiro pro ônibus?

A mulher era muito carinhosa, mas séria. Séria também era sua filha Marta que, vez ou outra, passava pela cozinha, cumprimentava-me, encolhido atrás do prato. O marido, senhor Miltom Jacintho Guimarães, estava permanentemente de bom humor. Sua passagem pela cozinha era uma festa, e a alegria que sempre o acompanhou ele a derramava cada vez que eu, já adulto, era por ele apresentado a seus amigos da Praça Barão.

- Este aqui é cria lá de casa.

Bem alimentado, cursei o ensino fundamental e o ensino médio no Instituto de Educação Torquato Caleiro, fui aprovado em concurso, arranjei emprego bom, julguei-me independente. Cursei universidade, virei professor, escrevi livros.

A vida é generosa e boa professora e tem-me mostrado a importância de muitas pessoas em minha caminhada. Dentre elas, surge sempre a imagem bondosa e discreta de Dona Bertha, a quem externei minha gratidão pessoalmente e em alguns textos.

No entanto, sinto que não agradeci o mais importante.

Dona Bertha mudou-se.

Ao me despedir da mulher tão caridosa, sou tomado por um novo olhar sobre meu passado. De repente descubro que nunca lhe agradeci suficientemente. Agradeci apenas o arroz, o feijão, a carne que me alimentaram o corpo.

Nunca agradeci as colheradas de solidariedade, de bondade, de humildade, de religiosidade que ela me ministrou.

Mas nunca é tarde para reconhecer um débito.

Agradeço agora, Dona Bertha.

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