Ginger

Por: Mauro Ferreira

Comecei a colaborar com a imprensa local ainda muito jovem, recém-formado em arquitetura. Por muitos anos, escrevi para o Diário da Franca, que era comandado pelo Luis Carlos Facury, que havia começado aqui no Comércio e depois foi fazer outro jornal diário. O Facury tinha um método de trabalho específico. Naquela época (anos 70) tínhamos que levar uma cópia impressa do texto para o jornal pessoalmente. Ele lia, riscava, corrigia erros de português e passava para o Magno Dadonas, um jornalista com passagem pela revista Veja quando ela era séria. Depois, o texto ia para o linotipista, que ficava catando as letras uma a uma para montar o texto de impressão, no mesmo sistema que o Gutenberg tinha inventado.

Facury é casado com a Neusa, uma empresária do ramo calçadista. Mas seu nome poderia ter sido Ginger, por causa da atriz americana de cinema Ginger Rogers. Nascida Virginia Catherine em 1911 e falecida em 1995, Ginger era uma lourinha espevitada que logo no começo da carreira conheceu o mago do sapateado Fred Astaire, com quem fez dez filmes. Atuou até os anos 70, tendo participado de cem filmes em Hollywood.

Minha mãe era amiga desde menina da Catarina Sola, mãe da Neusa, no velho bairro do Cubatão, um tradicional reduto de imigrantes italianos e espanhóis. Adolescentes, quando se encontravam para passear na praça da matriz, Catarina dizia para minha mãe que, quando tivesse uma filha, seu nome seria Ginger para homenagear a atriz da qual era grande fã, não perdia um dos seus filmes nos cines São Luiz ou Santa Maria. No início da década de 1940, Ginger estava no auge de sua carreira, recebeu o Oscar em 1941. Minha mãe, quando casou em 1946, mudou-se para Araguari. Anos depois, quando retornou, havia perdido o contato com a amiga. Catarina também havia se casado e já tinha a filha, que recebeu o nome de Neusa.

Muitos anos depois, já nos anos 80, minha mãe foi conhecer a Europa. Em Paris, foi assistir ao espetáculo do Moulin Rouge, uma tradição francesa desde a “belle époque”. Quando seu grupo entrou no teatro, uma mulher loura tomava um drinque no bar. Minha mãe a reconheceu na hora, era Ginger Rogers. Ao ver o grupo de turistas e ser informada que eram brasileiros, caminhou simpática até eles e saudou-os com um estrepitoso “hello, Brazil”!

Minha mãe não sabe falar inglês e nada soube dizer, mas sua vontade foi conversar com Ginger e contar que sua amiga e fã na longínqua Franca do Imperador queria ter uma filha com o nome dela.

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