ArTEAR

Por: Maria Luiza Salomão

O Laboratório de Artes iniciou sua trajetória em 11/09/82, trinta anos atrás, e fechou suas portas em 1989, retomando, em 2009, com o foco restrito às Artes Plásticas. Em três anos, o Laboratório organizou perto de 30 exposições de artistas, em exposições individuais ou coletivas, de Uberlândia, S.Paulo, Ribeirão Preto, São Joaquim da Barra, Campinas, S.José do Rio Preto. Nada menos do que sete exposições individuais de artistas francanos.

Atalie Rodrigues Alves abre dia 10 de março até 10 de abril, sua Exposição ArTEAR. Ela retoma e amplia grande parte de seu trabalho anterior, que destacou o trabalhador rural e urbano, a arquitetura regional (as “janelas” e os mosaicos, herança portuguesa?), as cores vivas do nosso país (herança africana?).

Em ArTEAR, o Labor com as mãos e pés, a atividade primitiva do tear, ferramenta utilitária, a tecer as roupas do corpo, os tapetes e os panos que nos aquecem e protegem. Mas que também embelezam o estar no mundo (herança indígena?). De fotos, antigas e atuais, em sua maioria de uma viagem a Carmo do Rio Claro, a 70 km de Passos, Atalie compõe belos quadros de mulheres (e poucos homens) ao tear ou na roca a fiar.

Nesta maneira peculiar de Atalie olhar o labor humano e registrá-lo, observa-se um diálogo entre fundo e figura. O tear e seu tecido (figura) desbordam ao fundo, criando padronagens geométricas. Nosso olhar se perde nas fronteiras o que é figura e o que é fundo? Os rostos são geometrizados, e o efeito é quente, caloroso, remetendo a um Brasil artesanal, de origens, original, de um povo trabalhador (somos um povo trabalhador!). As cores são nossas, brasileiras. Vivazes, esperançosas.

O título ArTEAR remete, poeticamente, às teias que o fazer artístico instaura, ao enlaçar e expandir a emoção, ternura e orgulho por uma cultura compartilhada. Um lembrete poético, artístico, às Mulheres, e não só a elas (claro está) da necessidade de criação de teias perduráveis, de laços encantados e encantadores, em fios trançados de Confiança e Fé no porvir.

No Tear produz-se sustento material, mas não só. Toda atividade humana pode agregar outro tipo de sustento, duradouro, que vem do sentimento de pertencer ao lugar, exercer uma função, ser um minúsculo elo (um ponto) no Grande Tapete Infinito, passado e o futuro, de gerações. O ponto, um ponto, qualquer ponto mal feito no tecido, pode desfazê-lo, sob a ação do tempo e do desmazelo.

Com esta exposição, ArTEAR, a artista reinventa cores e padronagens, a destacar o labor de gentes anônimas que tecem destinos. Penso, especificamente, em um quadro que já comprei de Atalie, onde a tecelã tece o seu tecido, enquanto a artista reproduz a padronagem da tecelã no seu entorno, espalha o tecido, ocupa toda a tela, borrando a fronteira entre o Real do ofício de tecelã e o Onírico presente no olhar da artista.

A tecelã a tecer o seu destino, ou o sonho a tecer o destino da tecelã? Quem haverá de ter a resposta?

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